Tempo médio de leitura: 10 minutos
Dayad
avança pelas matas, montada em seu cavalo, até chegar a uma enorme clareira
cujo centro abriga uma nave espacial semelhante à dos primeiros invasores. Ela
avista suas companheiras atirando contra robôs, os quais, por sua vez, revidam
com disparos a laser.
“Então
estas são as feras de metal que a matriarca viu!” ‒ espanta-se a jovem, que não
se detém e avança em direção ao inimigo, de rifle em punho.
Os
disparos de Dayad não parecem surtir muito efeito nos robôs, os quais agora
disparam contra ela. De repente, ela vê Ioṣū escondida atrás de algumas pedras.
‒
Abaixe-se! ‒ grita sua companheira.
Um
tiro a laser por pouco não atinge Dayad, acertando, contudo, seu cavalo, que
tomba fatalmente ferido. A jovem rola por terra e logo se dá pela falta do
rifle, que se soltou de suas mãos durante a queda e foi parar do outro lado.
Mais
adiante, estão Enā’y e Ṣōd, que, com submetralhadoras, conseguem derrubar dois
dos seis robôs. Somente então Dayad percebe o corpo de Nadua, inerte, não longe
dali. E mais outros cadáveres ao redor. A jovem fecha os olhos, tomada por uma
dor extrema ao ver suas companheiras mortas, quando, de repente, sente um
estranho e repentino calor. Antes mesmo que se dê conta do que está por vir,
ela testemunha algo inacreditável acontecer diante de seus olhos: uma coluna de
fogo atravessa os céus, tal como se sobre ele pairasse uma imensa lupa
concentrando o calor do sol exatamente no ponto onde estão Enā’y e Ṣōd.
O
clarão é tão intenso que Dayad e Ioṣū viram seus rostos, somente para ver os
corpos de suas companheiras carbonizadas assim que olham de volta.
Horrorizadas, as duas partem para o outro lado, atraindo os disparos inimigos.
Sem ter para onde fugir, Ioṣū atira contra os robôs, derrubando mais um deles,
enquanto Dayad corre para buscar seu rifle caído. Assim que recupera a arma,
ela percebe, à distância, semblantes pálidos, fantasmagóricos, fitando-a de
dentro da nave. Nesse instante, outra descarga celestial irrompe, alvejando,
desta vez, Ioṣū.
Nunca
antes, desde que perdeu a voz, Dayad quis tanto gritar. Ela corre em direção ao
corpo incinerado de sua companheira, queimando mãos e pés ao se aproximar dele
e tocá-lo. Em prantos, ela olha para a nave, cujos semblantes interiores se
retiram da janela. Em seguida, ela vê um dos robôs mirando em sua direção.
Trevas.
...
Dayad
desperta, atônita, no batente da morada de sua avó, que já não mais se
encontra. Suada e ofegante, ela não consegue entender como foi parar ali, mas
ao ver seu cavalo pastando calmamente logo adiante, tem a impressão de que tudo
não passou de um pesadelo. Então ela se lembra de Ioṣū e, antes que se dê
conta, já está montada a cavalo, atravessando a mata rumo ao campo de batalha.
Após
cerca de uma hora e meia de cavalgada, finalmente Dayad se aproxima da estranha
e, ao mesmo tempo, familiar clareira ao redor da nave. De rifle em punho, ela
avança para ajudar suas companheiras, quando reconhece o corpo de Nadua caído
exatamente no mesmo lugar onde havia visto antes. À distância, ela identifica
sua companheira, entrincheirada entre as rochas, e os estranhos bichos de ferro
com suas armas letais.
“Foi
uma visão!” ‒ constata Dayad, perplexa. “Mas, não pode ser! Mãe Akonū injetou a
infusão em mim?!”
A
jovem observa atentamente o campo de batalha. Os movimentos inimigos, os corpos
de suas companheiras, os semblantes fantasmagóricos dentro da nave, tudo o que
estava fresco em sua memória agora se repete.
“Pense,
Dayad, pense! Você já sabe que fim isso vai levar se repetir os mesmos atos,
então, temos que fazer algo de diferente, mas, o quê?”
De
repente, a jovem tem um estalo e bate em disparada na direção do inimigo, para
espanto de suas companheiras.
‒
Você ficou louca, Dayad?! Volte! ‒ grita Enā’y.
Dayad
avança atirando nos robôs e apenas gesticula para que Enā’y e as outras
sigam-na. Ioṣū, mesmo sem entender a atitude aparentemente suicida, confia em
sua companheira e corre atrás dela, furando o bloqueio robótico. Ṣōd balança a
cabeça e também se junta às companheiras. Enā’y, ainda que descrente, não vê
outra alternativa a não ser se juntar ao trio, quando nota a temperatura se
elevar e uma coluna flamejante acertar o lugar onde estava.
O
quarteto, a duras penas, consegue chegar até a nave espacial, para espanto do
casal de ocupantes em seu interior. Os robôs, programados para não atirar na
direção da nave, agora são presa fácil para as caçadoras, que os cravejam de
balas.
‒
Isso! ‒ gritam as jovens, se abraçando em comemoração.
‒
Genial! Como você teve essa brilhante ideia, Dayad? ‒ pergunta Iouria, um
caçador que estava escondido e agora se aproxima, junto com um casal ‒ Ūāṣ e
Zioiz ‒ e uma caçadora de um povoado vizinho, Ayizur.
Antes
que Dayad possa explicar, um dispositivo da nave acende e uma poderosa descarga
elétrica toma o grupo de surpresa.
...
‒
Esses selvagens até que deram mais trabalho do que eu pensava, mas não foram
páreo para minha brilhante estratégia de criar espaços vazios para atraí-los e
torná-los presa fácil para o Arcanjo! Diga se seu irmão não é um gênio? Quem
mais teria a soberba ideia de remanejar nosso satélite de proteção contra
asteroides para fins bélicos? E não me diga que essa ideia foi estúpida por nos
deixar desprotegidos, pois eu pensei em tudo: não há nenhuma chuva de meteoros
prevista para cair nesta região até o ano que vem! Minha estratégia deu tão
certo, que somente em um ponto do planeta eles foram capazes de passar pelo
arcanjo e alcançar a nave, para fritarem logo em seguida, hahaha!
‒
757...
‒ O
quê?
‒ Sem
contar os vikings...
‒ Do
que você está falando, Perpetua?
‒ Há
757 anos essa gente resiste... E você acha que irá vencê-la...
O bom
humor inicial do reverendo se esvai como em um passe de mágica. Irritado, ele retira
uma pistola de um compartimento ao lado da cela. Assim que adentra o cubículo
onde Perpetua se encontra sentada, encostada na parede, Paul a derruba com um violento
chute e aponta-lhe a pistola logo em seguida.
‒
Malditos sejam nossos pais por ensinarem história terráquea a você! Esse
privilégio de nossa dinastia deveria ser e será somente dos varões! Você é
apenas um receptáculo para meu esperma, uma máquina de parir quebrada! Já que
nem para servir seu único propósito você serve, o melhor que você faz é ficar
calada, ouviu bem?!
Paul
aperta o gatilho e Perpetua sequer reage aos disparos que perfuram sua pele
coberta de hematomas. Os dardos tranquilizantes começam a fazer efeito e ela
logo adormece mais uma vez. Visivelmente perturbado, Paul deixa a cela e se
encaminha para a sala de comando da Arca, onde operadores se entretêm
assistindo as gravações do sangrento encontro entre as forças marcianas e a
resistência terráquea. Ao ver o reverendo, entretanto, seus risos desaparecem
imediatamente.
‒ Paz
de Cristo! ‒ saúdam os funcionários, atemorizados diante da repentina aparição
do líder supremo.
‒ Paz
de Cristo. ‒ responde Christianson. ‒ Como vai a missão?
‒
Tudo como planejado, Vossa Santidade. ‒ responde um funcionário, após breve e
indeciso silêncio geral. ‒ A arca já enviou sondas e robôs reservas para suprir
as perdas nas colônias. A segurança dos colonos está garantida e logo as sondas
devem trazer materiais para as naves. Dentro de 72 horas elas devem se juntar à
Arca e retornarem para cá, trazendo de mainframes a prisioneiros.
“Colônias...
Colonos... Colombo... Deus quis assim. Era o destino e continua sendo!” ‒
reflete Christianson, absorto em seus pensamentos.
Sem
saber se continua a relatar ou também emudece, o funcionário procede a buscar
imagens sobre um painel, o que logo atrai o olhar do reverendo.
‒ São
oito no total, três machos e cinco fêmeas. ‒ relata o funcionário, apontando
para a tela onde se veem os corpos ainda desacordados depois do choque.
‒
Excelente. ‒ admira-se o reverendo. ‒ Os cientistas já foram acionados?
‒
Sim, Vossa Santidade. Uma área de quarentena de segurança máxima já está sendo
preparada para a chegada dos demônios.
‒ Bom
trabalho. Paz de Cristo. ‒ diz o reverendo, retirando-se.
‒ Paz
de Cristo! ‒ respondem os operadores, mantendo-se curvados até que a porta se
fecha, quando rompem o silêncio com um pesado suspiro.
‒
Vocês viram? Ele quase tocou em mim! ‒ diz um dos rapazes, extasiado.
‒
Acho que nunca estive tão próximo do Santo Líder em toda minha vida! ‒ declara
outro.
‒ Ele
é perfeito... ‒ admira-se mais um, com lágrimas nos olhos.
...
Os
olhos de Dayad se abrem, mas a escuridão é a mesma. Ela tateia ao redor até encontrar
o corpo de alguém, quente, logo, vivo. Ela balança o corpo que ela julga ser de
Enā’y, até que esta desperta, atônita.
‒ O
que foi!? O que... o que está acontecendo?! ‒ berra a caçadora, desferindo
chutes contra Dayad, sem saber de quem se trata.
‒
Quem está aí? ‒ pergunta outra voz, masculina, amedrontada, tateando pelas
paredes metálicas.
‒ Ai!
Você pisou em mim! ‒ grita Ioṣū, para alegria de Dayad, que corre na direção de
sua voz, mas tropeça em outro corpo.
‒ Mas
que... O que foi isso? ‒ pergunta Ṣōd, desnorteado ao acordar às escuras com um
corpo tropeçado sobre si. ‒ Largue-me!
Dayad,
assustada, se afasta, tateando ao redor até encontrar uma parede, enquanto o
resto do grupo se desperta aos poucos, confuso e apavorado.
‒
Será que morremos? ‒ indaga Ayizur, assustada. ‒ Então existe vida após a morte
e ela é assim, um buraco escuro?
‒
Após a morte, nosso corpo se desintegra e volta para as entranhas da terra. Eu
me sinto bastante inteiro, ainda. ‒ responde Ṣōd.
‒
Dayad! Vocês sabem onde está Dayad? ‒ pergunta Ioṣū, desesperada.
Dayad
ouve o que precisava para encontrar sua amada, finalmente abraçando-a logo em
seguida.
‒ Oh,
meu amor, você está bem? ‒ preocupa-se Ioṣū, tateando o corpo de sua
companheira, aparentemente intacto. ‒ Ela está bem, pessoal! E vocês?
As
vozes anuem, após breve teste táctil.
‒
Acho que fomos capturadas por alguma espécie de armadilha. ‒ analisa Iouria. ‒ Diria
até que estamos dentro da nave. Ouçam:
O
caçador bate na parede de metal, cujo som é idêntico ao repercutido pela nave
da primeira expedição inimiga.
‒ E
agora, seria melhor não fazer barulho? Ou fazer barulho até não nos aguentarem
mais? ‒ pergunta Ṣōd.
‒
Acho que já fizemos barulho suficiente. Temos que achar um jeito de fugirmos
daqui. ‒ conclui Enā’y, tateando em busca de uma saída.
Enquanto
isso, o casal marciano calmamente observa o desespero terráqueo através das
câmeras de visão noturna, na sala de estar dentro de seu módulo blindado, que
deve permanecer na Terra quando a nave partir.
‒
Esses demônios até que fazem lembrar gente. ‒ comenta o homem, que não deve ter
mais que vinte anos.
‒
Eles andam praticamente nus, feito bichos! Além disso, olhe para a cor deles, a
estatura diminuta, os ruídos que emitem... Isso não pode ser gente. ‒ contesta
a jovem, ainda em tenra adolescência. ‒ Sua Santidade disse que eles descendem
dos pecadores que foram condenados no juízo final, por isso eles têm formato
humanoide, mas não são mais dignos de se dizerem humanos e habitar estas
terras. Eles ainda têm sorte de contarem com a benevolência dEle em deixá-los
vivos...
‒ Tem
razão. Ainda faltam dois dias até que a nave receba todo o carregamento. Acho
que vou acionar os robôs para colocar os prisioneiros em sono criogênico logo,
assim poupamos tempo.
‒ Você
ficou louco?! Os robôs acabaram de reparar os danos causados na nave por essas
bestas e você já quer tirá-los de seus postos de guarda para botá-las para
dormir? Estamos na região mais perigosa do planeta, fomos os únicos a serem
alcançados pelos demônios e os únicos a mantê-los em cativeiro. Precisamos de
toda proteção possível!
‒
Você está certa... ‒ anui o jovem, cabisbaixo.
A
garota revira os olhos e vai para outro canto ler a bíblia. O rapaz olha para o
monitor, com pena daquelas figuras desesperadas, que inutilmente tentam fugir.
Interessante a visão de Dayad! Foi uma surpresa e tanto!
ReplyDeleteMais um sangrento embate e captura de seu grupo. Terrível destino os aguardam, pelo jeito.
Parabéns pelo capítulo, e que está cada vez mais interessante a história!
Domingo já virou dia preferido, hehe
infelizmente tudo isso (menos o arcanjo) tem paralelo na vida real...
ReplyDeleteSim, infelizmente sim. O mal é cíclico, independentemente da raça, cultura e época. Sua obra é e sempre será 'atual'.
DeleteCristãos e protestantes, hutus e tutsis, xiitas e sunitas... uma lista interminável. Fora os 'donos do mundo' que surgem por aí.
E meus sinceros parabéns pelo domínio das palavras, ideias e narrativa!
E que breve seja o domingo!
Li ouvindo isso: https://youtu.be/tyvK4HLTEI0 Funcionou, pra mim...
ReplyDelete