Sunday, January 13, 2019

Capítulo 8: Arcanjo

Tempo médio de leitura: 10 minutos


Dayad avança pelas matas, montada em seu cavalo, até chegar a uma enorme clareira cujo centro abriga uma nave espacial semelhante à dos primeiros invasores. Ela avista suas companheiras atirando contra robôs, os quais, por sua vez, revidam com disparos a laser.
“Então estas são as feras de metal que a matriarca viu!” ‒ espanta-se a jovem, que não se detém e avança em direção ao inimigo, de rifle em punho.
Os disparos de Dayad não parecem surtir muito efeito nos robôs, os quais agora disparam contra ela. De repente, ela vê Ioṣū escondida atrás de algumas pedras.
‒ Abaixe-se! ‒ grita sua companheira.
Um tiro a laser por pouco não atinge Dayad, acertando, contudo, seu cavalo, que tomba fatalmente ferido. A jovem rola por terra e logo se dá pela falta do rifle, que se soltou de suas mãos durante a queda e foi parar do outro lado.
Mais adiante, estão Enā’y e Ṣōd, que, com submetralhadoras, conseguem derrubar dois dos seis robôs. Somente então Dayad percebe o corpo de Nadua, inerte, não longe dali. E mais outros cadáveres ao redor. A jovem fecha os olhos, tomada por uma dor extrema ao ver suas companheiras mortas, quando, de repente, sente um estranho e repentino calor. Antes mesmo que se dê conta do que está por vir, ela testemunha algo inacreditável acontecer diante de seus olhos: uma coluna de fogo atravessa os céus, tal como se sobre ele pairasse uma imensa lupa concentrando o calor do sol exatamente no ponto onde estão Enā’y e Ṣōd. 


O clarão é tão intenso que Dayad e Ioṣū viram seus rostos, somente para ver os corpos de suas companheiras carbonizadas assim que olham de volta. Horrorizadas, as duas partem para o outro lado, atraindo os disparos inimigos. Sem ter para onde fugir, Ioṣū atira contra os robôs, derrubando mais um deles, enquanto Dayad corre para buscar seu rifle caído. Assim que recupera a arma, ela percebe, à distância, semblantes pálidos, fantasmagóricos, fitando-a de dentro da nave. Nesse instante, outra descarga celestial irrompe, alvejando, desta vez, Ioṣū.
Nunca antes, desde que perdeu a voz, Dayad quis tanto gritar. Ela corre em direção ao corpo incinerado de sua companheira, queimando mãos e pés ao se aproximar dele e tocá-lo. Em prantos, ela olha para a nave, cujos semblantes interiores se retiram da janela. Em seguida, ela vê um dos robôs mirando em sua direção. Trevas.

...

Dayad desperta, atônita, no batente da morada de sua avó, que já não mais se encontra. Suada e ofegante, ela não consegue entender como foi parar ali, mas ao ver seu cavalo pastando calmamente logo adiante, tem a impressão de que tudo não passou de um pesadelo. Então ela se lembra de Ioṣū e, antes que se dê conta, já está montada a cavalo, atravessando a mata rumo ao campo de batalha.
Após cerca de uma hora e meia de cavalgada, finalmente Dayad se aproxima da estranha e, ao mesmo tempo, familiar clareira ao redor da nave. De rifle em punho, ela avança para ajudar suas companheiras, quando reconhece o corpo de Nadua caído exatamente no mesmo lugar onde havia visto antes. À distância, ela identifica sua companheira, entrincheirada entre as rochas, e os estranhos bichos de ferro com suas armas letais.
“Foi uma visão!” ‒ constata Dayad, perplexa. “Mas, não pode ser! Mãe Akonū injetou a infusão em mim?!”
A jovem observa atentamente o campo de batalha. Os movimentos inimigos, os corpos de suas companheiras, os semblantes fantasmagóricos dentro da nave, tudo o que estava fresco em sua memória agora se repete.
“Pense, Dayad, pense! Você já sabe que fim isso vai levar se repetir os mesmos atos, então, temos que fazer algo de diferente, mas, o quê?”
De repente, a jovem tem um estalo e bate em disparada na direção do inimigo, para espanto de suas companheiras.
‒ Você ficou louca, Dayad?! Volte! ‒ grita Enā’y.
Dayad avança atirando nos robôs e apenas gesticula para que Enā’y e as outras sigam-na. Ioṣū, mesmo sem entender a atitude aparentemente suicida, confia em sua companheira e corre atrás dela, furando o bloqueio robótico. Ṣōd balança a cabeça e também se junta às companheiras. Enā’y, ainda que descrente, não vê outra alternativa a não ser se juntar ao trio, quando nota a temperatura se elevar e uma coluna flamejante acertar o lugar onde estava.
O quarteto, a duras penas, consegue chegar até a nave espacial, para espanto do casal de ocupantes em seu interior. Os robôs, programados para não atirar na direção da nave, agora são presa fácil para as caçadoras, que os cravejam de balas.
‒ Isso! ‒ gritam as jovens, se abraçando em comemoração.
‒ Genial! Como você teve essa brilhante ideia, Dayad? ‒ pergunta Iouria, um caçador que estava escondido e agora se aproxima, junto com um casal ‒ Ūāṣ e Zioiz ‒ e uma caçadora de um povoado vizinho, Ayizur.
Antes que Dayad possa explicar, um dispositivo da nave acende e uma poderosa descarga elétrica toma o grupo de surpresa.

...

‒ Esses selvagens até que deram mais trabalho do que eu pensava, mas não foram páreo para minha brilhante estratégia de criar espaços vazios para atraí-los e torná-los presa fácil para o Arcanjo! Diga se seu irmão não é um gênio? Quem mais teria a soberba ideia de remanejar nosso satélite de proteção contra asteroides para fins bélicos? E não me diga que essa ideia foi estúpida por nos deixar desprotegidos, pois eu pensei em tudo: não há nenhuma chuva de meteoros prevista para cair nesta região até o ano que vem! Minha estratégia deu tão certo, que somente em um ponto do planeta eles foram capazes de passar pelo arcanjo e alcançar a nave, para fritarem logo em seguida, hahaha!
‒ 757...
‒ O quê?
‒ Sem contar os vikings...
‒ Do que você está falando, Perpetua?
‒ Há 757 anos essa gente resiste... E você acha que irá vencê-la...
O bom humor inicial do reverendo se esvai como em um passe de mágica. Irritado, ele retira uma pistola de um compartimento ao lado da cela. Assim que adentra o cubículo onde Perpetua se encontra sentada, encostada na parede, Paul a derruba com um violento chute e aponta-lhe a pistola logo em seguida.
‒ Malditos sejam nossos pais por ensinarem história terráquea a você! Esse privilégio de nossa dinastia deveria ser e será somente dos varões! Você é apenas um receptáculo para meu esperma, uma máquina de parir quebrada! Já que nem para servir seu único propósito você serve, o melhor que você faz é ficar calada, ouviu bem?!
Paul aperta o gatilho e Perpetua sequer reage aos disparos que perfuram sua pele coberta de hematomas. Os dardos tranquilizantes começam a fazer efeito e ela logo adormece mais uma vez. Visivelmente perturbado, Paul deixa a cela e se encaminha para a sala de comando da Arca, onde operadores se entretêm assistindo as gravações do sangrento encontro entre as forças marcianas e a resistência terráquea. Ao ver o reverendo, entretanto, seus risos desaparecem imediatamente.
‒ Paz de Cristo! ‒ saúdam os funcionários, atemorizados diante da repentina aparição do líder supremo.
‒ Paz de Cristo. ‒ responde Christianson. ‒ Como vai a missão?
‒ Tudo como planejado, Vossa Santidade. ‒ responde um funcionário, após breve e indeciso silêncio geral. ‒ A arca já enviou sondas e robôs reservas para suprir as perdas nas colônias. A segurança dos colonos está garantida e logo as sondas devem trazer materiais para as naves. Dentro de 72 horas elas devem se juntar à Arca e retornarem para cá, trazendo de mainframes a prisioneiros.
“Colônias... Colonos... Colombo... Deus quis assim. Era o destino e continua sendo!” ‒ reflete Christianson, absorto em seus pensamentos.
Sem saber se continua a relatar ou também emudece, o funcionário procede a buscar imagens sobre um painel, o que logo atrai o olhar do reverendo.
‒ São oito no total, três machos e cinco fêmeas. ‒ relata o funcionário, apontando para a tela onde se veem os corpos ainda desacordados depois do choque.
‒ Excelente. ‒ admira-se o reverendo. ‒ Os cientistas já foram acionados?
‒ Sim, Vossa Santidade. Uma área de quarentena de segurança máxima já está sendo preparada para a chegada dos demônios.
‒ Bom trabalho. Paz de Cristo. ‒ diz o reverendo, retirando-se.
‒ Paz de Cristo! ‒ respondem os operadores, mantendo-se curvados até que a porta se fecha, quando rompem o silêncio com um pesado suspiro.
‒ Vocês viram? Ele quase tocou em mim! ‒ diz um dos rapazes, extasiado.
‒ Acho que nunca estive tão próximo do Santo Líder em toda minha vida! ‒ declara outro.
‒ Ele é perfeito... ‒ admira-se mais um, com lágrimas nos olhos.

...

Os olhos de Dayad se abrem, mas a escuridão é a mesma. Ela tateia ao redor até encontrar o corpo de alguém, quente, logo, vivo. Ela balança o corpo que ela julga ser de Enā’y, até que esta desperta, atônita.
‒ O que foi!? O que... o que está acontecendo?! ‒ berra a caçadora, desferindo chutes contra Dayad, sem saber de quem se trata.
‒ Quem está aí? ‒ pergunta outra voz, masculina, amedrontada, tateando pelas paredes metálicas.
‒ Ai! Você pisou em mim! ‒ grita Ioṣū, para alegria de Dayad, que corre na direção de sua voz, mas tropeça em outro corpo. 
‒ Mas que... O que foi isso? ‒ pergunta Ṣōd, desnorteado ao acordar às escuras com um corpo tropeçado sobre si. ‒ Largue-me!
Dayad, assustada, se afasta, tateando ao redor até encontrar uma parede, enquanto o resto do grupo se desperta aos poucos, confuso e apavorado.
‒ Será que morremos? ‒ indaga Ayizur, assustada. ‒ Então existe vida após a morte e ela é assim, um buraco escuro?
‒ Após a morte, nosso corpo se desintegra e volta para as entranhas da terra. Eu me sinto bastante inteiro, ainda. ‒ responde Ṣōd.
‒ Dayad! Vocês sabem onde está Dayad? ‒ pergunta Ioṣū, desesperada.
Dayad ouve o que precisava para encontrar sua amada, finalmente abraçando-a logo em seguida.
‒ Oh, meu amor, você está bem? ‒ preocupa-se Ioṣū, tateando o corpo de sua companheira, aparentemente intacto. ‒ Ela está bem, pessoal! E vocês?
As vozes anuem, após breve teste táctil.
‒ Acho que fomos capturadas por alguma espécie de armadilha. ‒ analisa Iouria. ‒ Diria até que estamos dentro da nave. Ouçam:
O caçador bate na parede de metal, cujo som é idêntico ao repercutido pela nave da primeira expedição inimiga.
‒ E agora, seria melhor não fazer barulho? Ou fazer barulho até não nos aguentarem mais? ‒ pergunta Ṣōd.
‒ Acho que já fizemos barulho suficiente. Temos que achar um jeito de fugirmos daqui. ‒ conclui Enā’y, tateando em busca de uma saída.
Enquanto isso, o casal marciano calmamente observa o desespero terráqueo através das câmeras de visão noturna, na sala de estar dentro de seu módulo blindado, que deve permanecer na Terra quando a nave partir.
‒ Esses demônios até que fazem lembrar gente. ‒ comenta o homem, que não deve ter mais que vinte anos.
‒ Eles andam praticamente nus, feito bichos! Além disso, olhe para a cor deles, a estatura diminuta, os ruídos que emitem... Isso não pode ser gente. ‒ contesta a jovem, ainda em tenra adolescência. ‒ Sua Santidade disse que eles descendem dos pecadores que foram condenados no juízo final, por isso eles têm formato humanoide, mas não são mais dignos de se dizerem humanos e habitar estas terras. Eles ainda têm sorte de contarem com a benevolência dEle em deixá-los vivos...
‒ Tem razão. Ainda faltam dois dias até que a nave receba todo o carregamento. Acho que vou acionar os robôs para colocar os prisioneiros em sono criogênico logo, assim poupamos tempo.
‒ Você ficou louco?! Os robôs acabaram de reparar os danos causados na nave por essas bestas e você já quer tirá-los de seus postos de guarda para botá-las para dormir? Estamos na região mais perigosa do planeta, fomos os únicos a serem alcançados pelos demônios e os únicos a mantê-los em cativeiro. Precisamos de toda proteção possível!
‒ Você está certa... ‒ anui o jovem, cabisbaixo.
A garota revira os olhos e vai para outro canto ler a bíblia. O rapaz olha para o monitor, com pena daquelas figuras desesperadas, que inutilmente tentam fugir.


4 comments:

  1. Interessante a visão de Dayad! Foi uma surpresa e tanto!
    Mais um sangrento embate e captura de seu grupo. Terrível destino os aguardam, pelo jeito.
    Parabéns pelo capítulo, e que está cada vez mais interessante a história!
    Domingo já virou dia preferido, hehe

    ReplyDelete
  2. infelizmente tudo isso (menos o arcanjo) tem paralelo na vida real...

    ReplyDelete
    Replies
    1. Sim, infelizmente sim. O mal é cíclico, independentemente da raça, cultura e época. Sua obra é e sempre será 'atual'.
      Cristãos e protestantes, hutus e tutsis, xiitas e sunitas... uma lista interminável. Fora os 'donos do mundo' que surgem por aí.
      E meus sinceros parabéns pelo domínio das palavras, ideias e narrativa!
      E que breve seja o domingo!

      Delete
  3. Li ouvindo isso: https://youtu.be/tyvK4HLTEI0 Funcionou, pra mim...

    ReplyDelete

Índice

Dedicatória / Aviso Capítulo 1: Sono eterno     Capítulo 2: O banquete     Capítulo 3: Um povo sem nome     Capítulo 4: Pr...