Cai a noite. As ruas se tornam
desertas, silenciosas demais até para Dayad, que nunca havia estado ali em
outras ocasiões para comparar. Escondida dentro de um depósito vizinho ao
celeiro, a terráquea se esgueira por entre as tralhas do ferro velho amontoadas
por todas as partes, até finalmente abrir a porta e sair somente após se
certificar de que não há ninguém por perto.
Da janela de seu palácio, o reverendo
observa a praça central, tão movimentada até poucos instantes e agora
completamente deserta. Na jaula, Ayizur
e Iouria se renderam ao sono, enquanto Enā’y continua a analisar
meticulosamente os arredores em busca de qualquer coisa que possa servir para
sua fuga. O reverendo sente que Simon se aproxima e abre a porta com um gesto.
‒ Está tudo pronto, Vossa Santidade. Certificamo-nos
de que todos os cidadãos se retiraram aos seus lares após o toque de recolher e
nossos homens já tomaram suas posições. Dessa vez ela não escapa.
‒ Claro, dessa vez a estratégia quem
criou fui eu. Já que esses inúteis não conseguem dar conta de capturar uma
mulher nua e amedrontada, faremos com que ela venha a nós, ou melhor, a seus
companheiros.
‒ Nua ela pode estar, mas, amedrontada...
‒ Silêncio! ‒ interrompe o reverendo.
‒ Eu sinto que ela está se aproximando, mas ainda não consigo penetrar sua
mente.
‒ Por onde ela está vindo? Mandarei os
guardas interceptarem-na.
‒ Estranho... Ela está vindo na
diagonal.
‒ Na diagonal?
‒ Sim, ela não está chegando por
nenhuma via, mas... Por cima dos prédios?
Simon se esforça para não duvidar de
seu mestre nem em pensamento, mas não consegue processar aquelas palavras sem
sentido.
‒ Você ouviu isso? ‒ pergunta
Christianson, aproximando-se da janela.
‒ “Isso” o quê exatamente, Vossa
Santidade?
‒ Maldição! ‒ esbraveja o reverendo ao
ver um disparo a laser sobre os edifícios do outro lado da praça. ‒ Seus homens
estão sendo atacados e você nem se dá conta, seu imprestável!
Simon, espantado, tenta se comunicar
com os guardas pelo rádio, mas só logra na terceira tentativa:
‒ O que está acontecendo?! Capturaram
a fugitiva?
‒ Negativo, senhor! ‒ responde uma voz
ofegante. ‒ Fui atingido e meu colega se encontra em estado grave. A maldita é
rápida e voa por sobre os prédios! Parece que ela descobriu nosso plano e...
Um ruído de disparo interrompe a
transmissão.
‒ Mas, que diabos! Toda vez é isso, a
desgraçada interrompe tudo o que começamos! Já estou ficando com medo de começar
uma frase e não terminá-la! ‒ desabafa Simon, suando frio.
‒ Só há uma pessoa aqui que você deve
temer: eu! ‒ grita o reverendo, arremessando seu servo contra a parede com uma
forte descarga elétrica vinda de suas mãos, aliada a uma ruptura no centro
gravitacional de sua vítima. ‒ Suma daqui e só volte com a tinhosa, senão serão
duas cabeças a prêmio hoje!
O servo, mais trêmulo do que nunca,
anui e sai correndo a tropeções da sala.
Christianson retorna a seu trono e se
concentra.
“Arrependa-se e creia no evangelho,
pecadora, ou sua alma irá queimar no Inferno por toda eternidade!” ‒ “exclama”
o reverendo em tom profético.
Silêncio. Christianson, que nunca
antes em sua vida foi ignorado por ninguém, ajeita o aparelho acoplado às suas
têmporas, disfarçado pelos cabelos, chegando a duvidar de que este esteja
funcionando.
“Você está me ouvindo, terráquea
insolente!? Eu sou seu Deus, você está
em meu território e tem a obrigação de me responder!”
O silêncio só é cortado por disparos a
laser vindos do lado de fora. Sequer pensamentos podem ser lidos. Acostumada a
não falar por tantos anos, Dayad apenas se preocupa em neutralizar o inimigo e
assegurar seu acesso à jaula.
“Responda ou mato seus companheiros,
sua índia maldita!!!” ‒ vocifera Christianson, desta vez tanto em pensamento
quanto oralmente.
“Do que você me chamou?” ‒ pergunta
Dayad.
Mais surpreso do que deveria em ouvir
a voz da receptora, as palavras parecem fugir da boca de Christianson, que
finalmente balbucia:
“Índia? Índia, sim, maldita índia!” ‒
repete ele, como que se se apegasse àquela única e preciosa palavra capaz de
atrair a atenção de seu alvo.
“Era um lugar, não era? Por que você
me chama de lugar?”
Christianson, intrigado, só percebe
que sua interlocutora está falando sério por seu tom de voz. Lembrando-se dos
dados emitidos pela Gênesis, ele ensaia uma breve aula de história
eurocentrista:
“Quando os europeus chegaram às terras
onde seu povo habitava, eles acreditaram estar na Índia. Por isso, chamaram a
todos vocês de índios.”
“Então eles realmente eram muito
estúpidos.” ‒ conclui Dayad. “E você, tão estúpido quanto eles, assim como seus
ancestrais, está cavando a própria cova.”
Estupefato diante de
tamanha audácia, o reverendo tenta achar palavras para retrucar à altura quando
percebe, para seu espanto, o vulto da própria forasteira ali, em sua frente, do
outro lado da janela, fitando-o a centímetros de distância.
O sangue do marciano congela. Correr?
Abrir a janela e arriscar ser alvejado pela terráquea? Em qualquer um dos
cenários Christianson se vê morto ou humilhado, aliás, humilhado ele já está. O
marciano inutilmente olha ao redor, desorientado, como se buscasse alguma
solução milagrosa. Ao olhar novamente pela janela, contudo, já não vê mais a
terráquea.
‒ Será que eu estou ficando louco? E
se essa mentira que inventei, de que essa gente é demoníaca, for verdade? ‒
pergunta a si mesmo em voz alta o reverendo, olhando para a galeria de pinturas
de seus ancestrais, expostas na parede. ‒ Então a Bíblia não é apenas uma ferramenta
de dominação, ela tem, de fato, algum fundo de verdade?
Um disparo do lado de fora tira
Christianson de seu turbilhão de pensamentos. Ele se aproxima temerosamente da
janela, apenas para notar a jaula aberta e vazia, no meio da praça. Há alguns
quarteirões dali, em um lugar mais recôndito, o quarteto finalmente retoma
fôlego.
‒ Dayad, que bom ver você! ‒ sussurra
Enā’y, abraçando a amiga com tanta força que quase a deixa sufocada.
‒ Muito obrigada por nos salvar, de
novo! ‒ agradece Ayizur.
Dayad sorri, feliz de rever suas
companheiras, mas logo dá pela falta de Zioiz e Ūāṣ.
‒ Não sabemos para onde elas foram
levadas. ‒ lamenta Iouria. ‒ Quando acordamos, já estávamos dentro daquela
coisa. Foi horrível!
‒ E você, para onde levaram? ‒ pergunta
Enā’y.
“É uma longa história.” ‒ responde
Dayad. “Mas não podemos descansar agora. Temos que encontrar o casal e ir
embora daqui!”
‒ Tem razão, mas, como? Nem sabemos
onde estamos! ‒ aflige-se Ayizur.
“Eu posso levá-la até o casal e enviar
seus amigos de volta para casa.”
‒ Dayad? Você está bem? ‒ pergunta Ayizur,
ao ver o semblante distante e nervoso da companheira.
“E como saber se isso não é uma
armadilha?”
“Só eu sei onde estão seus amigos.
Quer revê-los ou não?”
‒ O que está acontecendo, Dayad? É
aquela voz de novo? ‒ inquieta-se Enā’y.
“Sim. Ela sabe onde estão Zioiz e Ūāṣ, diz que
pode nos levar até elas e depois para casa.”
‒ É uma armadilha, só pode! ‒ exclama
Iouria.
“Claro que é, mas, sem a ajuda dele é
praticamente impossível encontrá-las.”
‒ O que você pensa em fazer, então? ‒
pergunta Ayizur.
“Eu sei onde ele mora. Vamos lá
forçá-lo a dizer...”
Neste momento, Dayad percebe uma
pequena esfera metálica rolando suavemente pelo chão, até chegar perto do
grupo. Antes mesmo que ela possa alertar suas companheiras, o artefato se abre,
liberando uma potente descarga elétrica, similar à que deixou o grupo fora de
combate na Terra.
...
‒ Bom trabalho, Simon, eu sabia que
você não iria me desapontar. ‒ congratula Christianson ao ver seu servo trazer
em seus braços a fugitiva desacordada. ‒ É claro que se eu não distraísse os
fugitivos, sua estratégia não teria funcionado.
‒ Certamente, Vossa Santidade. ‒
aquiesce o servo, deitando Dayad sobre um divã.
‒ E quanto aos outros prisioneiros?
‒ Estão numa prisão temporária,
enquanto a jaula está sendo reparada e reforçada. Amanhã eles já estarão de
volta em exibição.
‒ Excelente. Agora me deixe com a
minha convidada de honra. Eu até permitiria você brincar um pouco com ela
depois de mim, mas, você sabe... ‒ sorri perversamente o reverendo fazendo um
gesto de tesoura com a mão, em referência ao fato de Simon, bem como todos os
seus antecessores, ser eunuco.
O servo anui e se retira, em silêncio.
Paul agora olha para Dayad,
adormecida, com seu corpo nu aninhado em seu pomposo divã. Seu ímpeto é de
agarrá-la e violá-la imediatamente, mas, quiçá pela primeira vez em sua vida,
ele controla o ímpeto e se resume a admirar aquela cena com tal enlevo como se
fosse uma pintura. Sua pele morena, seus cabelos negros e brilhantes como o
enigmático espaço sideral, aquelas misteriosas marcas em seu braço... Seu coração
palpita e suas mãos suam, como se outra vez estivesse na puberdade. É quase
como se ao tocá-la ele estragasse a magia daquele momento. O reverendo então
resolve se sentar diante de sua prisioneira, seu tão aguardado troféu de
guerra. Sentar e observar longa, silenciosa e incessantemente ‒ exatamente o
oposto do que está por vir.
Cerca de uma hora depois, os olhos de
Dayad começam a se abrir, para o deleite do reverendo. Assim que ela o vê,
instintivamente rola seu corpo para trás da mobília e se entrincheira,
assustada.
“Não tenha medo, pequenina.” ‒ sorri o
reverendo. “Se eu quisesse machucá-la, já o haveria feito muito antes.”
Dayad, atônita, percebe que está com
amarras nas mãos e nos pés. Seu corpo não parece conter sinais de violência
física, além do choque, e, aos poucos, ela começa a entender em que lugar ela
está ‒ o cômodo de seu inimigo, dentro do qual ela o havia espreitado pouco
tempo antes.
“Se é assim, então me desamarre.” ‒
exige Dayad.
“Vou considerar seu pedido, se você
for uma boa menina.” ‒ responde Christianson, se levantando de seu trono.
Dayad observa a movimentação do
marciano, de trás do divã. Ele coloca a mão na parede e então um compartimento
se abre, revelando uma pessoa de longos cabelos quase brancos de tão loiros,
sentada em um cubículo.
‒ Perpetua, veja quem apareceu para
nos visitar. Não é todo dia que alguém do planeta Terra dá as caras por aqui,
então vamos, dê-lhe as boas-vindas! ‒ sorri Paul, abrindo parcialmente a grossa
parede de vidro que isola sua irmã.
A marciana vira languidamente o rosto
na direção do cômodo de seu irmão e vê o semblante assustado de Dayad.
‒ Quero compartilhar este momento com
você, querida. De todas as mulheres com quem eu já fiz você me ver copular,
esta é a primeira terráquea. Primeira e última, certamente, pois já estamos
tratando de exterminar a raça dela tanto aqui quanto na Terra. ‒ diz Paul,
apontando para Dayad. ‒ Você não imagina o trabalho que foi trazê-la até aqui,
então preste muita atenção. Você sabe que isso aumenta o meu prazer...
O aparentemente eterno torpor de
Perpetua acaba subitamente quando esta se lança contra a vidraça, enfurecida.
‒ Maldito! Quantas pessoas mais irão
sofrer por sua crueldade?! Quantas vidas mais você tem que arruinar para se
satisfazer, seu desgraçado, canalha, covarde!!!
Embora Dayad não entenda uma palavra
sequer, ela percebe que aquela mulher odeia tanto aquele homem, quanto ela.
‒ Isso é jeito de uma dama se
comportar? ‒ desdenha Paul, fechando a barreira de vidro, para não ouvir os
gritos da irmã, e voltando-se para Dayad. ‒ Onde paramos? Ah, sim...
O marciano se aproxima da terráquea
que, atada, malmente consegue se apoiar na parede e se esforça para ficar de
pé.
‒ Confesso que quando nos encontramos a primeira
vez eu malmente via um ser humano em você, ainda mais, quando vi suas
tendências pecaminosas. Mas, então você me surpreendeu. Você é arisca,
imprevisível, indomável, coisas que eu jamais havia visto numa mulher. Cada vez
que eu pensava em você, que eu ouvia a sua voz ‒ privilégio unicamente meu,
aliás ‒ você ia ficando cada vez mais bonita, me deixando cada vez mais
excitado. Quando você apareceu aqui na sacada, a poucos centímetros de mim, ao
mesmo tempo em que fiquei apavorado eu... quase tive um orgasmo. Ah, droga,
esqueci que você não entende uma palavra do que falo. Enfim, chega de conversa,
vamos logo para os “finalmentes”!
Fenomenal... conseguiu alternar bem as ações e repouso no capítulo, mantendo a emoção e curiosidade do que vem pela frente. O erotismo perturbado do Reverendo contrastando com a beleza natural da Dayad foi muito bem apresentado.
ReplyDeleteA personagem Perpetua foi uma criação magistral, onde se concentra quase toda a perversidade dessa sociedade e mente doentia.
A ilustração também não ficou atrás, como sempre...
Muito, muito bom!
Obrigado, meu caro :)
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