Sunday, February 10, 2019

Capítulo 11: Emboscada


Cai a noite. As ruas se tornam desertas, silenciosas demais até para Dayad, que nunca havia estado ali em outras ocasiões para comparar. Escondida dentro de um depósito vizinho ao celeiro, a terráquea se esgueira por entre as tralhas do ferro velho amontoadas por todas as partes, até finalmente abrir a porta e sair somente após se certificar de que não há ninguém por perto.
Da janela de seu palácio, o reverendo observa a praça central, tão movimentada até poucos instantes e agora completamente deserta.  Na jaula, Ayizur e Iouria se renderam ao sono, enquanto Enā’y continua a analisar meticulosamente os arredores em busca de qualquer coisa que possa servir para sua fuga. O reverendo sente que Simon se aproxima e abre a porta com um gesto.
‒ Está tudo pronto, Vossa Santidade. Certificamo-nos de que todos os cidadãos se retiraram aos seus lares após o toque de recolher e nossos homens já tomaram suas posições. Dessa vez ela não escapa.
‒ Claro, dessa vez a estratégia quem criou fui eu. Já que esses inúteis não conseguem dar conta de capturar uma mulher nua e amedrontada, faremos com que ela venha a nós, ou melhor, a seus companheiros.
‒ Nua ela pode estar, mas, amedrontada...
‒ Silêncio! ‒ interrompe o reverendo. ‒ Eu sinto que ela está se aproximando, mas ainda não consigo penetrar sua mente.
‒ Por onde ela está vindo? Mandarei os guardas interceptarem-na.
‒ Estranho... Ela está vindo na diagonal.
‒ Na diagonal?
‒ Sim, ela não está chegando por nenhuma via, mas... Por cima dos prédios?
Simon se esforça para não duvidar de seu mestre nem em pensamento, mas não consegue processar aquelas palavras sem sentido.
‒ Você ouviu isso? ‒ pergunta Christianson, aproximando-se da janela.
‒ “Isso” o quê exatamente, Vossa Santidade?
‒ Maldição! ‒ esbraveja o reverendo ao ver um disparo a laser sobre os edifícios do outro lado da praça. ‒ Seus homens estão sendo atacados e você nem se dá conta, seu imprestável!
Simon, espantado, tenta se comunicar com os guardas pelo rádio, mas só logra na terceira tentativa:
‒ O que está acontecendo?! Capturaram a fugitiva?
‒ Negativo, senhor! ‒ responde uma voz ofegante. ‒ Fui atingido e meu colega se encontra em estado grave. A maldita é rápida e voa por sobre os prédios! Parece que ela descobriu nosso plano e...
Um ruído de disparo interrompe a transmissão.
‒ Mas, que diabos! Toda vez é isso, a desgraçada interrompe tudo o que começamos! Já estou ficando com medo de começar uma frase e não terminá-la! ‒ desabafa Simon, suando frio.
‒ Só há uma pessoa aqui que você deve temer: eu! ‒ grita o reverendo, arremessando seu servo contra a parede com uma forte descarga elétrica vinda de suas mãos, aliada a uma ruptura no centro gravitacional de sua vítima. ‒ Suma daqui e só volte com a tinhosa, senão serão duas cabeças a prêmio hoje!
O servo, mais trêmulo do que nunca, anui e sai correndo a tropeções da sala.
Christianson retorna a seu trono e se concentra.
“Arrependa-se e creia no evangelho, pecadora, ou sua alma irá queimar no Inferno por toda eternidade!” ‒ “exclama” o reverendo em tom profético. 
Silêncio. Christianson, que nunca antes em sua vida foi ignorado por ninguém, ajeita o aparelho acoplado às suas têmporas, disfarçado pelos cabelos, chegando a duvidar de que este esteja funcionando.
“Você está me ouvindo, terráquea insolente!?  Eu sou seu Deus, você está em meu território e tem a obrigação de me responder!”
O silêncio só é cortado por disparos a laser vindos do lado de fora. Sequer pensamentos podem ser lidos. Acostumada a não falar por tantos anos, Dayad apenas se preocupa em neutralizar o inimigo e assegurar seu acesso à jaula.
“Responda ou mato seus companheiros, sua índia maldita!!!” ‒ vocifera Christianson, desta vez tanto em pensamento quanto oralmente.
“Do que você me chamou?” ‒ pergunta Dayad.
Mais surpreso do que deveria em ouvir a voz da receptora, as palavras parecem fugir da boca de Christianson, que finalmente balbucia:
“Índia? Índia, sim, maldita índia!” ‒ repete ele, como que se se apegasse àquela única e preciosa palavra capaz de atrair a atenção de seu alvo.
“Era um lugar, não era? Por que você me chama de lugar?”
Christianson, intrigado, só percebe que sua interlocutora está falando sério por seu tom de voz. Lembrando-se dos dados emitidos pela Gênesis, ele ensaia uma breve aula de história eurocentrista:
“Quando os europeus chegaram às terras onde seu povo habitava, eles acreditaram estar na Índia. Por isso, chamaram a todos vocês de índios.”
“Então eles realmente eram muito estúpidos.” ‒ conclui Dayad. “E você, tão estúpido quanto eles, assim como seus ancestrais, está cavando a própria cova.” 
Estupefato diante de tamanha audácia, o reverendo tenta achar palavras para retrucar à altura quando percebe, para seu espanto, o vulto da própria forasteira ali, em sua frente, do outro lado da janela, fitando-o a centímetros de distância.
 

 O sangue do marciano congela. Correr? Abrir a janela e arriscar ser alvejado pela terráquea? Em qualquer um dos cenários Christianson se vê morto ou humilhado, aliás, humilhado ele já está. O marciano inutilmente olha ao redor, desorientado, como se buscasse alguma solução milagrosa. Ao olhar novamente pela janela, contudo, já não vê mais a terráquea.

‒ Será que eu estou ficando louco? E se essa mentira que inventei, de que essa gente é demoníaca, for verdade? ‒ pergunta a si mesmo em voz alta o reverendo, olhando para a galeria de pinturas de seus ancestrais, expostas na parede. ‒ Então a Bíblia não é apenas uma ferramenta de dominação, ela tem, de fato, algum fundo de verdade?
Um disparo do lado de fora tira Christianson de seu turbilhão de pensamentos. Ele se aproxima temerosamente da janela, apenas para notar a jaula aberta e vazia, no meio da praça. Há alguns quarteirões dali, em um lugar mais recôndito, o quarteto finalmente retoma fôlego.
‒ Dayad, que bom ver você! ‒ sussurra Enā’y, abraçando a amiga com tanta força que quase a deixa sufocada.
‒ Muito obrigada por nos salvar, de novo! ‒ agradece Ayizur.
Dayad sorri, feliz de rever suas companheiras, mas logo dá pela falta de Zioiz e Ūāṣ.
‒ Não sabemos para onde elas foram levadas. ‒ lamenta Iouria. ‒ Quando acordamos, já estávamos dentro daquela coisa. Foi horrível!
‒ E você, para onde levaram? ‒ pergunta Enā’y.
“É uma longa história.” ‒ responde Dayad. “Mas não podemos descansar agora. Temos que encontrar o casal e ir embora daqui!”
‒ Tem razão, mas, como? Nem sabemos onde estamos! ‒ aflige-se Ayizur.
“Eu posso levá-la até o casal e enviar seus amigos de volta para casa.”
‒ Dayad? Você está bem? ‒ pergunta Ayizur, ao ver o semblante distante e nervoso da companheira.
“E como saber se isso não é uma armadilha?”
“Só eu sei onde estão seus amigos. Quer revê-los ou não?”
‒ O que está acontecendo, Dayad? É aquela voz de novo? ‒ inquieta-se Enā’y.
 “Sim. Ela sabe onde estão Zioiz e Ūāṣ, diz que pode nos levar até elas e depois para casa.”
‒ É uma armadilha, só pode! ‒ exclama Iouria.
“Claro que é, mas, sem a ajuda dele é praticamente impossível encontrá-las.”
‒ O que você pensa em fazer, então? ‒ pergunta Ayizur.
“Eu sei onde ele mora. Vamos lá forçá-lo a dizer...”
Neste momento, Dayad percebe uma pequena esfera metálica rolando suavemente pelo chão, até chegar perto do grupo. Antes mesmo que ela possa alertar suas companheiras, o artefato se abre, liberando uma potente descarga elétrica, similar à que deixou o grupo fora de combate na Terra.

...

‒ Bom trabalho, Simon, eu sabia que você não iria me desapontar. ‒ congratula Christianson ao ver seu servo trazer em seus braços a fugitiva desacordada. ‒ É claro que se eu não distraísse os fugitivos, sua estratégia não teria funcionado.
‒ Certamente, Vossa Santidade. ‒ aquiesce o servo, deitando Dayad sobre um divã.
‒ E quanto aos outros prisioneiros?  
‒ Estão numa prisão temporária, enquanto a jaula está sendo reparada e reforçada. Amanhã eles já estarão de volta em exibição.
‒ Excelente. Agora me deixe com a minha convidada de honra. Eu até permitiria você brincar um pouco com ela depois de mim, mas, você sabe... ‒ sorri perversamente o reverendo fazendo um gesto de tesoura com a mão, em referência ao fato de Simon, bem como todos os seus antecessores, ser eunuco.
O servo anui e se retira, em silêncio.
Paul agora olha para Dayad, adormecida, com seu corpo nu aninhado em seu pomposo divã. Seu ímpeto é de agarrá-la e violá-la imediatamente, mas, quiçá pela primeira vez em sua vida, ele controla o ímpeto e se resume a admirar aquela cena com tal enlevo como se fosse uma pintura. Sua pele morena, seus cabelos negros e brilhantes como o enigmático espaço sideral, aquelas misteriosas marcas em seu braço... Seu coração palpita e suas mãos suam, como se outra vez estivesse na puberdade. É quase como se ao tocá-la ele estragasse a magia daquele momento. O reverendo então resolve se sentar diante de sua prisioneira, seu tão aguardado troféu de guerra. Sentar e observar longa, silenciosa e incessantemente ‒ exatamente o oposto do que está por vir.
Cerca de uma hora depois, os olhos de Dayad começam a se abrir, para o deleite do reverendo. Assim que ela o vê, instintivamente rola seu corpo para trás da mobília e se entrincheira, assustada.
“Não tenha medo, pequenina.” ‒ sorri o reverendo. “Se eu quisesse machucá-la, já o haveria feito muito antes.”
Dayad, atônita, percebe que está com amarras nas mãos e nos pés. Seu corpo não parece conter sinais de violência física, além do choque, e, aos poucos, ela começa a entender em que lugar ela está ‒ o cômodo de seu inimigo, dentro do qual ela o havia espreitado pouco tempo antes.
“Se é assim, então me desamarre.” ‒ exige Dayad.
“Vou considerar seu pedido, se você for uma boa menina.” ‒ responde Christianson, se levantando de seu trono.
Dayad observa a movimentação do marciano, de trás do divã. Ele coloca a mão na parede e então um compartimento se abre, revelando uma pessoa de longos cabelos quase brancos de tão loiros, sentada em um cubículo.
‒ Perpetua, veja quem apareceu para nos visitar. Não é todo dia que alguém do planeta Terra dá as caras por aqui, então vamos, dê-lhe as boas-vindas! ‒ sorri Paul, abrindo parcialmente a grossa parede de vidro que isola sua irmã.
A marciana vira languidamente o rosto na direção do cômodo de seu irmão e vê o semblante assustado de Dayad.
‒ Quero compartilhar este momento com você, querida. De todas as mulheres com quem eu já fiz você me ver copular, esta é a primeira terráquea. Primeira e última, certamente, pois já estamos tratando de exterminar a raça dela tanto aqui quanto na Terra. ‒ diz Paul, apontando para Dayad. ‒ Você não imagina o trabalho que foi trazê-la até aqui, então preste muita atenção. Você sabe que isso aumenta o meu prazer...
O aparentemente eterno torpor de Perpetua acaba subitamente quando esta se lança contra a vidraça, enfurecida.
‒ Maldito! Quantas pessoas mais irão sofrer por sua crueldade?! Quantas vidas mais você tem que arruinar para se satisfazer, seu desgraçado, canalha, covarde!!!
Embora Dayad não entenda uma palavra sequer, ela percebe que aquela mulher odeia tanto aquele homem, quanto ela.
‒ Isso é jeito de uma dama se comportar? ‒ desdenha Paul, fechando a barreira de vidro, para não ouvir os gritos da irmã, e voltando-se para Dayad. ‒ Onde paramos? Ah, sim...
O marciano se aproxima da terráquea que, atada, malmente consegue se apoiar na parede e se esforça para ficar de pé.
‒ Confesso que quando nos encontramos a primeira vez eu malmente via um ser humano em você, ainda mais, quando vi suas tendências pecaminosas. Mas, então você me surpreendeu. Você é arisca, imprevisível, indomável, coisas que eu jamais havia visto numa mulher. Cada vez que eu pensava em você, que eu ouvia a sua voz ‒ privilégio unicamente meu, aliás ‒ você ia ficando cada vez mais bonita, me deixando cada vez mais excitado. Quando você apareceu aqui na sacada, a poucos centímetros de mim, ao mesmo tempo em que fiquei apavorado eu... quase tive um orgasmo. Ah, droga, esqueci que você não entende uma palavra do que falo. Enfim, chega de conversa, vamos logo para os “finalmentes”!

2 comments:

  1. Fenomenal... conseguiu alternar bem as ações e repouso no capítulo, mantendo a emoção e curiosidade do que vem pela frente. O erotismo perturbado do Reverendo contrastando com a beleza natural da Dayad foi muito bem apresentado.
    A personagem Perpetua foi uma criação magistral, onde se concentra quase toda a perversidade dessa sociedade e mente doentia.
    A ilustração também não ficou atrás, como sempre...
    Muito, muito bom!

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Índice

Dedicatória / Aviso Capítulo 1: Sono eterno     Capítulo 2: O banquete     Capítulo 3: Um povo sem nome     Capítulo 4: Pr...