Monday, January 21, 2019

Capítulo 9: Bem-vindos a Marte



Tão logo é notificado sobre o retorno da Arca, o reverendo se dirige à sacada de seu palácio, o edifício mais alto da colônia, uma espécie de castelo metálico com traços de igreja, encimado por uma imponente cruz de ferro. No céu avista-se, através da imensa redoma de vidro vulcânico que separa a colônia de seu inóspito ambiente externo, um ponto inicialmente brilhante, tal como uma estrela, que se divide em dois ‒ quando o Arcanjo se desprende da Arca para retornar à sua função de defender a colônia de possíveis asteroides e meteoritos. O segundo vai se tornando escuro e cada vez maior à medida que se aproxima. Finalmente, a grande nave-mãe desacelera e adentra o porto espacial de Bethesda, com sua própria redoma pressurizada, isolada do restante da colônia.
Na praça central, diante do palácio, preparam-se festividades em comemoração à missão bem-sucedida. Um coral infanto-juvenil ensaia cânticos enquanto robôs preparam as decorações e alguns técnicos testam um enorme painel eletrônico que apresentará imagens da expedição marciana na Terra e, posteriormente, iniciará a contagem regressiva para o aniversário de 200 anos da colônia, no dia seguinte. Ao ver a figura do reverendo, todas as pessoas se curvam em saudação, como de costume, mas, para sua surpresa, já não o veem quando retomam suas posturas.
Já na doca principal, o reverendo observa os robôs que estão descarregando os contêineres vindos das sete naves-filhas que se reuniram com a Arca após deixar os módulos com os casais na Terra. Dentro deles há de tudo: metais, terras raras, obras de arte, animais, plantas, unidades de armazenamento de dados contendo zettabytes de informação, mostras de solo, ar, água de rios e mares, pessoas.
Um a um os módulos individuais de sono criogênico são levados para uma sala de quarentena, onde, através de um espelho, o reverendo e uma pequena comitiva de auxiliares e técnicos observam o grupo terráqueo ser despertado, isto é, ser ejetado de seus módulos por um robô controlado remotamente pelo reverendo.
‒ Bem-vindos a Marte, escória terráquea. ‒ “saúda” Christianson através de alto-falantes que reverberam dentro da sala.
Desnorteado, o grupo não entende nem de onde vêm nem o que significam esses sons incompreensíveis. Ioṣū, entretanto, alegra-se ao ver Dayad, que se esforça para levantar e ir ao seu encontro, o que chama a atenção do reverendo.
‒ Você está bem? ‒ pergunta Ioṣū, apalpando o corpo de sua companheira em busca de possíveis ferimentos.
Dayad anui com a cabeça e abraça Ioṣū, feliz em revê-la.
‒ Viram aquilo? Duas fêmeas, se tocando e se abraçando daquele jeito! Que horror! ‒ aponta um técnico da comitiva.
‒ O que esperar deles? São demônios! Nem sequer falam língua de gente. ‒ comenta outro. ‒ Uma coisa que eu percebi ainda nas filmagens anteriores é que os lábios deles nem parecem se mexer quando falam. Parece que eles não têm nem “b”, nem “m” e nem “p”!
‒ Nem Bíblia, nem moral, nem princípios! ‒ condena o reverendo.
‒ É... Mas vejam, ao menos parece que tem um casal normal ali. ‒ aponta um auxiliar para um homem e uma mulher que também se abraçam, mais adiante.
‒ Que casal pode haver sem comunhão em Cristo?! ‒ irrita-se o reverendo. ‒ Esqueceram-se de que esses demônios vivem no pecado e na perdição?
‒ É verdade... ‒ anuem os demais.
‒ Agora, quietos! Vou me comunicar com eles, para saber quantos mais deles existem e onde estão seus focos de resistência ainda não detectados.
Os homens concordam e se silenciam, enquanto Christianson olha para o grupo e se concentra.
‒ E então, alguém aí sabe onde nós estamos? ‒ pergunta Zioiz.
‒ Não sei, mas tenho uma ligeira impressão de que estamos longe de casa... ‒ supõe Enā’y, observando o sinistro robô no canto da sala.
“Aquele robô é o menor de seus problemas.”
‒ Quem disse isso?! ‒ assusta-se Enā’y, fitando suas companheiras.
‒ Quem disse o quê? ‒ questiona Ṣōd, intrigado.
‒ Vocês não ouviram? Uma voz disse que aquele... sei lá o quê lá, é o menor dos nossos problemas! ‒ exclama Enā’y, perturbada.
“Não foi nenhum de seus companheiros que falou, eu falei!”
‒ Quem é você?! ‒ indaga Enā’y, atônita.
“Eu sou... Deus!” ‒ responde a voz, em tom triunfante.
‒ “Deus”? E o que é “deus”? ‒ inquire a terráquea, ainda mais confusa.
Christianson arregala os olhos, para estranhamento de seus acompanhantes.
“Com quem você está falando, Enā’y?” ‒ pergunta Dayad, curiosa.
‒ Uma voz está falando comigo, não sei quem é, mas parece aquela mesma que disse algo estranho logo quando acordamos! ‒ infere a caçadora. ‒ Como é que você fala a minha língua?! Você é Akonū?
“Akonū? Sim, sou Akonū...” ‒ responde a voz, agora mais amigável. “Diga-me, onde estão escondidos os outros Akonū?”
‒ Os outros Akonū? ‒ estranha Enā’y.
‒ “Os outros Akonū”? A voz disse isso? ‒ pergunta Ṣōd. ‒ Hahaha!
O riso toma conta do grupo terráqueo, para espanto dos marcianos.
“Silêncio!” ‒ grita a voz, em vão.
O erro gramatical ao aplicar plural masculino para uma população mista além de desacreditar o reverendo ainda o tornou motivo de chacota. Nunca antes tão humilhado em toda sua vida, Christianson aciona o robô, que efetua um disparo a laser contra Ṣōd.
‒ Arrrrgh!!! ‒ urra o jovem, tombando de imediato.
Suas companheiras urgem em sua direção, deparando-se com uma grande queimadura em seu peito.
‒ Ṣōd, não!!! ‒ grita Enā’y, desesperada.
‒ Zāehak... ‒ murmura o jovem, agora inerte.
Os homens atrás do espelho sorriem e parabenizam o reverendo pelo tiro certeiro, massageando seu ego ferido. Mais irada do que consternada, Enā’y olha para o robô e se volta para suas companheiras:
‒ O que é pior do que uma tragédia?
Entendendo a mensagem, as outras se escondem atrás dos módulos criogênicos, tais como sarcófagos encostados nas paredes, não sendo mais visíveis do espelho.
‒ Agora estão com medo... ‒ ri-se um dos operadores.
‒ Ingrediente principal do respeito. ‒ completa o reverendo, voltando o robô na direção do grupo.
Assim que o robô se aproxima, para surpresa do reverendo, seu corpo metálico é esmagado pelo peso de um dos módulos, jogado por Dayad.
“Maldita! Você vai pagar por isso!” ‒ grita Christianson com Enā’y, sem perceber que está se dirigindo à pessoa errada. “Má hora eu decidi trazer vocês para nosso planeta!”
Dayad, alheia às bravatas inimigas, arranca a pistola a laser do robô esmagado e atira contra o espelho, para espanto dos marcianos. O disparo, entretanto, ricocheteia, retirando somente parte da camada reflexiva do espelho, sem danificar significativamente a proteção. Atônitos, os homens veem a terráquea se aproximar, de arma em punho.
‒ Não se preocupem, esse vidro é blindado, não há nada que ela possa... ‒ a fala de um dos técnicos é interrompida por uma coronhada no vidro.
Dayad, contra os conselhos que suas companheiras lhe sussurram, procede até a marca do disparo, de onde olha para o interior da câmara onde estão os marcianos, que pulam para trás, apavorados.
‒ Isso agora já foi longe demais! ‒ enfurece-se o reverendo. ‒ Guardas!
Cinco guardas que esperavam do lado de fora ‒ três robôs e dois humanos ‒ adentram a sala, efetuando disparos elétricos contra o grupo. Dayad reage, atirando com sua pistola a laser contra um dos robôs, mas este se defende com um escudo de vidro vulcânico que faz o disparo ricochetear e acertar o braço de Zioiz.
‒ Ai! ‒ grita a caçadora, pouco antes de levar um choque e desfalecer.
Temendo causar ainda mais estragos, Dayad joga sua pistola ao chão e mostra as palmas de suas mãos, em sinal de paz, gesto repetido por suas companheiras. Vendo isso, o reverendo interrompe o ataque.
‒ Vejamos... Levem esse casal para o laboratório. ‒ ordena Christianson, apontando para o corpo desacordado de Zioiz e seu companheiro, que tenta inutilmente acudi-la. ‒ O pessoal lá vai adorar dissecá-los.
Um guarda robô lança uma poderosa descarga elétrica que faz o terráqueo desmaiar, levando-o junto com sua companheira, em seguida.
“Por que não consigo ativar a visão agora?!” ‒ desespera-se Dayad, tocando a ferida em seu braço por onde a infusão foi injetada, como se para se convencer de que aquilo foi real.
Ioṣū segura sua mão e sorri, tentando tranquilizar a companheira.
‒ Aquelas duas depravadas ali. ‒ aponta o reverendo, seguido de olhares dos guardas. ‒ Aliás, deixem que eu cuido delas!
Christianson apanha uma arma a laser da mão de um dos guardas e adentra a sala, mesmo contra as recomendações de seus subalternos, uma vez que a quarentena ainda não havia sido concluída. Ele então aponta a arma para o casal, ao que Dayad tenta recuperar a arma que havia jogado no chão, mas o reverendo dispara contra ela, afastando-a ainda mais.
‒ Tentou atirar em nós uma vez? Corajosa. Duas vezes? Estúpida! Antes de morrer você ainda vai pagar caro por tanta audácia, sua diabinha! ‒ exclama o reverendo, apontando sua arma e disparando na cabeça de Ioṣū, para desespero de Dayad.
A jovem, atônita, tenta reanimar sua companheira, aninhando a cabeça dela em seus braços, em vão. Intrigado por nem sequer ouvir um gemido de angústia da terráquea, o reverendo a observa mais de perto e, como se finalmente entendesse um mistério, exclama mentalmente a Dayad:
“Mulher, lésbica, baixinha, membro de uma raça inferior que acreditávamos já termos extinguido e, além disso... muda! Como pode, tanta fraqueza num só lugar!?”
Dayad segura o choro e olha nos olhos de Paul com tamanha ira que até seus guardas avançam para intervir, ainda que ela esteja desarmada.
“Nada do que você diz faz o mínimo sentido.” ‒ responde Dayad. “Mas, se ser covarde é a única coisa que você consegue, ao menos seja um covarde por completo e termine seu trabalho. Mate-me agora ou farei você e sua gente se arrependerem amargamente do dia em que cruzaram o nosso caminho!”
Pela primeira vez na vida, Christianson se sente intimidado ‒ não só fisicamente, como também mentalmente. A ordem natural das coisas para ele sempre foi estar no lugar de ameaçador, nunca de ameaçado. Entretanto, agora ele se vê diante de um diminuto, porém colossal dilema: se ele matá-la ali, agora mesmo, viverá para sempre com o peso de ser um covarde, como tantas vezes sua irmã já o chamou. Mais do que isso: se ele matá-la agora, ele estará obedecendo às ordens de uma mulher, forasteira, prisioneira, homossexual, selvagem e deficiente. Que desgraça poderia ser maior do que essa para um homem em sua posição? E por que ele se sente tão excitado com isso tudo?
‒ Perdão, Vossa Santidade, mas, o que faremos agora? ‒ pergunta um guarda, tirando o reverendo do turbilhão de pensamentos que o invadiu.
‒ Ah, sim... ‒ balbucia o reverendo, algo raro de se ver. ‒ Esses aí desmaiados vocês podem engaiolar e deixar na praça central para o povo ver. Considerem isso meu presente especial para o bicentenário: o primeiro zoológico em toda história da colônia. Quanto aos presuntos, enterrem lá fora para serem purificados. Logo, logo teremos carne seca importada à vontade, um verdadeiro banquete exótico, tal como achávamos ter sido privilégio apenas dos nossos pais fundadores. Agora esta aqui... Tratem de dar-lhe um bom banho, vesti-la de maneira apropriada e levá-la aos meus aposentos. Eu hei de convertê-la ainda esta noite...

Sunday, January 13, 2019

Capítulo 8: Arcanjo

Tempo médio de leitura: 10 minutos


Dayad avança pelas matas, montada em seu cavalo, até chegar a uma enorme clareira cujo centro abriga uma nave espacial semelhante à dos primeiros invasores. Ela avista suas companheiras atirando contra robôs, os quais, por sua vez, revidam com disparos a laser.
“Então estas são as feras de metal que a matriarca viu!” ‒ espanta-se a jovem, que não se detém e avança em direção ao inimigo, de rifle em punho.
Os disparos de Dayad não parecem surtir muito efeito nos robôs, os quais agora disparam contra ela. De repente, ela vê Ioṣū escondida atrás de algumas pedras.
‒ Abaixe-se! ‒ grita sua companheira.
Um tiro a laser por pouco não atinge Dayad, acertando, contudo, seu cavalo, que tomba fatalmente ferido. A jovem rola por terra e logo se dá pela falta do rifle, que se soltou de suas mãos durante a queda e foi parar do outro lado.
Mais adiante, estão Enā’y e Ṣōd, que, com submetralhadoras, conseguem derrubar dois dos seis robôs. Somente então Dayad percebe o corpo de Nadua, inerte, não longe dali. E mais outros cadáveres ao redor. A jovem fecha os olhos, tomada por uma dor extrema ao ver suas companheiras mortas, quando, de repente, sente um estranho e repentino calor. Antes mesmo que se dê conta do que está por vir, ela testemunha algo inacreditável acontecer diante de seus olhos: uma coluna de fogo atravessa os céus, tal como se sobre ele pairasse uma imensa lupa concentrando o calor do sol exatamente no ponto onde estão Enā’y e Ṣōd. 


O clarão é tão intenso que Dayad e Ioṣū viram seus rostos, somente para ver os corpos de suas companheiras carbonizadas assim que olham de volta. Horrorizadas, as duas partem para o outro lado, atraindo os disparos inimigos. Sem ter para onde fugir, Ioṣū atira contra os robôs, derrubando mais um deles, enquanto Dayad corre para buscar seu rifle caído. Assim que recupera a arma, ela percebe, à distância, semblantes pálidos, fantasmagóricos, fitando-a de dentro da nave. Nesse instante, outra descarga celestial irrompe, alvejando, desta vez, Ioṣū.
Nunca antes, desde que perdeu a voz, Dayad quis tanto gritar. Ela corre em direção ao corpo incinerado de sua companheira, queimando mãos e pés ao se aproximar dele e tocá-lo. Em prantos, ela olha para a nave, cujos semblantes interiores se retiram da janela. Em seguida, ela vê um dos robôs mirando em sua direção. Trevas.

...

Dayad desperta, atônita, no batente da morada de sua avó, que já não mais se encontra. Suada e ofegante, ela não consegue entender como foi parar ali, mas ao ver seu cavalo pastando calmamente logo adiante, tem a impressão de que tudo não passou de um pesadelo. Então ela se lembra de Ioṣū e, antes que se dê conta, já está montada a cavalo, atravessando a mata rumo ao campo de batalha.
Após cerca de uma hora e meia de cavalgada, finalmente Dayad se aproxima da estranha e, ao mesmo tempo, familiar clareira ao redor da nave. De rifle em punho, ela avança para ajudar suas companheiras, quando reconhece o corpo de Nadua caído exatamente no mesmo lugar onde havia visto antes. À distância, ela identifica sua companheira, entrincheirada entre as rochas, e os estranhos bichos de ferro com suas armas letais.
“Foi uma visão!” ‒ constata Dayad, perplexa. “Mas, não pode ser! Mãe Akonū injetou a infusão em mim?!”
A jovem observa atentamente o campo de batalha. Os movimentos inimigos, os corpos de suas companheiras, os semblantes fantasmagóricos dentro da nave, tudo o que estava fresco em sua memória agora se repete.
“Pense, Dayad, pense! Você já sabe que fim isso vai levar se repetir os mesmos atos, então, temos que fazer algo de diferente, mas, o quê?”
De repente, a jovem tem um estalo e bate em disparada na direção do inimigo, para espanto de suas companheiras.
‒ Você ficou louca, Dayad?! Volte! ‒ grita Enā’y.
Dayad avança atirando nos robôs e apenas gesticula para que Enā’y e as outras sigam-na. Ioṣū, mesmo sem entender a atitude aparentemente suicida, confia em sua companheira e corre atrás dela, furando o bloqueio robótico. Ṣōd balança a cabeça e também se junta às companheiras. Enā’y, ainda que descrente, não vê outra alternativa a não ser se juntar ao trio, quando nota a temperatura se elevar e uma coluna flamejante acertar o lugar onde estava.
O quarteto, a duras penas, consegue chegar até a nave espacial, para espanto do casal de ocupantes em seu interior. Os robôs, programados para não atirar na direção da nave, agora são presa fácil para as caçadoras, que os cravejam de balas.
‒ Isso! ‒ gritam as jovens, se abraçando em comemoração.
‒ Genial! Como você teve essa brilhante ideia, Dayad? ‒ pergunta Iouria, um caçador que estava escondido e agora se aproxima, junto com um casal ‒ Ūāṣ e Zioiz ‒ e uma caçadora de um povoado vizinho, Ayizur.
Antes que Dayad possa explicar, um dispositivo da nave acende e uma poderosa descarga elétrica toma o grupo de surpresa.

...

‒ Esses selvagens até que deram mais trabalho do que eu pensava, mas não foram páreo para minha brilhante estratégia de criar espaços vazios para atraí-los e torná-los presa fácil para o Arcanjo! Diga se seu irmão não é um gênio? Quem mais teria a soberba ideia de remanejar nosso satélite de proteção contra asteroides para fins bélicos? E não me diga que essa ideia foi estúpida por nos deixar desprotegidos, pois eu pensei em tudo: não há nenhuma chuva de meteoros prevista para cair nesta região até o ano que vem! Minha estratégia deu tão certo, que somente em um ponto do planeta eles foram capazes de passar pelo arcanjo e alcançar a nave, para fritarem logo em seguida, hahaha!
‒ 757...
‒ O quê?
‒ Sem contar os vikings...
‒ Do que você está falando, Perpetua?
‒ Há 757 anos essa gente resiste... E você acha que irá vencê-la...
O bom humor inicial do reverendo se esvai como em um passe de mágica. Irritado, ele retira uma pistola de um compartimento ao lado da cela. Assim que adentra o cubículo onde Perpetua se encontra sentada, encostada na parede, Paul a derruba com um violento chute e aponta-lhe a pistola logo em seguida.
‒ Malditos sejam nossos pais por ensinarem história terráquea a você! Esse privilégio de nossa dinastia deveria ser e será somente dos varões! Você é apenas um receptáculo para meu esperma, uma máquina de parir quebrada! Já que nem para servir seu único propósito você serve, o melhor que você faz é ficar calada, ouviu bem?!
Paul aperta o gatilho e Perpetua sequer reage aos disparos que perfuram sua pele coberta de hematomas. Os dardos tranquilizantes começam a fazer efeito e ela logo adormece mais uma vez. Visivelmente perturbado, Paul deixa a cela e se encaminha para a sala de comando da Arca, onde operadores se entretêm assistindo as gravações do sangrento encontro entre as forças marcianas e a resistência terráquea. Ao ver o reverendo, entretanto, seus risos desaparecem imediatamente.
‒ Paz de Cristo! ‒ saúdam os funcionários, atemorizados diante da repentina aparição do líder supremo.
‒ Paz de Cristo. ‒ responde Christianson. ‒ Como vai a missão?
‒ Tudo como planejado, Vossa Santidade. ‒ responde um funcionário, após breve e indeciso silêncio geral. ‒ A arca já enviou sondas e robôs reservas para suprir as perdas nas colônias. A segurança dos colonos está garantida e logo as sondas devem trazer materiais para as naves. Dentro de 72 horas elas devem se juntar à Arca e retornarem para cá, trazendo de mainframes a prisioneiros.
“Colônias... Colonos... Colombo... Deus quis assim. Era o destino e continua sendo!” ‒ reflete Christianson, absorto em seus pensamentos.
Sem saber se continua a relatar ou também emudece, o funcionário procede a buscar imagens sobre um painel, o que logo atrai o olhar do reverendo.
‒ São oito no total, três machos e cinco fêmeas. ‒ relata o funcionário, apontando para a tela onde se veem os corpos ainda desacordados depois do choque.
‒ Excelente. ‒ admira-se o reverendo. ‒ Os cientistas já foram acionados?
‒ Sim, Vossa Santidade. Uma área de quarentena de segurança máxima já está sendo preparada para a chegada dos demônios.
‒ Bom trabalho. Paz de Cristo. ‒ diz o reverendo, retirando-se.
‒ Paz de Cristo! ‒ respondem os operadores, mantendo-se curvados até que a porta se fecha, quando rompem o silêncio com um pesado suspiro.
‒ Vocês viram? Ele quase tocou em mim! ‒ diz um dos rapazes, extasiado.
‒ Acho que nunca estive tão próximo do Santo Líder em toda minha vida! ‒ declara outro.
‒ Ele é perfeito... ‒ admira-se mais um, com lágrimas nos olhos.

...

Os olhos de Dayad se abrem, mas a escuridão é a mesma. Ela tateia ao redor até encontrar o corpo de alguém, quente, logo, vivo. Ela balança o corpo que ela julga ser de Enā’y, até que esta desperta, atônita.
‒ O que foi!? O que... o que está acontecendo?! ‒ berra a caçadora, desferindo chutes contra Dayad, sem saber de quem se trata.
‒ Quem está aí? ‒ pergunta outra voz, masculina, amedrontada, tateando pelas paredes metálicas.
‒ Ai! Você pisou em mim! ‒ grita Ioṣū, para alegria de Dayad, que corre na direção de sua voz, mas tropeça em outro corpo. 
‒ Mas que... O que foi isso? ‒ pergunta Ṣōd, desnorteado ao acordar às escuras com um corpo tropeçado sobre si. ‒ Largue-me!
Dayad, assustada, se afasta, tateando ao redor até encontrar uma parede, enquanto o resto do grupo se desperta aos poucos, confuso e apavorado.
‒ Será que morremos? ‒ indaga Ayizur, assustada. ‒ Então existe vida após a morte e ela é assim, um buraco escuro?
‒ Após a morte, nosso corpo se desintegra e volta para as entranhas da terra. Eu me sinto bastante inteiro, ainda. ‒ responde Ṣōd.
‒ Dayad! Vocês sabem onde está Dayad? ‒ pergunta Ioṣū, desesperada.
Dayad ouve o que precisava para encontrar sua amada, finalmente abraçando-a logo em seguida.
‒ Oh, meu amor, você está bem? ‒ preocupa-se Ioṣū, tateando o corpo de sua companheira, aparentemente intacto. ‒ Ela está bem, pessoal! E vocês?
As vozes anuem, após breve teste táctil.
‒ Acho que fomos capturadas por alguma espécie de armadilha. ‒ analisa Iouria. ‒ Diria até que estamos dentro da nave. Ouçam:
O caçador bate na parede de metal, cujo som é idêntico ao repercutido pela nave da primeira expedição inimiga.
‒ E agora, seria melhor não fazer barulho? Ou fazer barulho até não nos aguentarem mais? ‒ pergunta Ṣōd.
‒ Acho que já fizemos barulho suficiente. Temos que achar um jeito de fugirmos daqui. ‒ conclui Enā’y, tateando em busca de uma saída.
Enquanto isso, o casal marciano calmamente observa o desespero terráqueo através das câmeras de visão noturna, na sala de estar dentro de seu módulo blindado, que deve permanecer na Terra quando a nave partir.
‒ Esses demônios até que fazem lembrar gente. ‒ comenta o homem, que não deve ter mais que vinte anos.
‒ Eles andam praticamente nus, feito bichos! Além disso, olhe para a cor deles, a estatura diminuta, os ruídos que emitem... Isso não pode ser gente. ‒ contesta a jovem, ainda em tenra adolescência. ‒ Sua Santidade disse que eles descendem dos pecadores que foram condenados no juízo final, por isso eles têm formato humanoide, mas não são mais dignos de se dizerem humanos e habitar estas terras. Eles ainda têm sorte de contarem com a benevolência dEle em deixá-los vivos...
‒ Tem razão. Ainda faltam dois dias até que a nave receba todo o carregamento. Acho que vou acionar os robôs para colocar os prisioneiros em sono criogênico logo, assim poupamos tempo.
‒ Você ficou louco?! Os robôs acabaram de reparar os danos causados na nave por essas bestas e você já quer tirá-los de seus postos de guarda para botá-las para dormir? Estamos na região mais perigosa do planeta, fomos os únicos a serem alcançados pelos demônios e os únicos a mantê-los em cativeiro. Precisamos de toda proteção possível!
‒ Você está certa... ‒ anui o jovem, cabisbaixo.
A garota revira os olhos e vai para outro canto ler a bíblia. O rapaz olha para o monitor, com pena daquelas figuras desesperadas, que inutilmente tentam fugir.


Sunday, January 6, 2019

Capítulo 7: Inevitável

Tempo médio de leitura: 9 minutos



Dois anos depois.
‒ Uma coluna de fumaça! Feras de metal! Fogo, colunas de fogo! A terra em chamas, gente em chamas! ‒ grita a matriarca olhando para os céus e depois para a terra, desesperada.
Enā’y afaga os cabelos da mãe, tentando acalmá-la. A anciã aos poucos volta a si, à medida que os efeitos da infusão passam. Ela então reconhece o rosto da filha e chora. Em seguida, ela olha para as demais pessoas presentes e chora ainda mais. Finalmente, ela se levanta e anuncia em tom fúnebre:
‒ Despeçam-se de seus entes queridos. O povo morto voltará para reclamar este território e, não importa o que façamos, o quanto treinemos e quanto resistamos: dessa vez não haverá escapatória.
Os olhares de estranhamento do público agora são tomados de surpresa. Não seria exagero da anciã? Pela primeira vez na história uma matriarca afirma que sua visão é inevitável, que não se pode fazer nada para impedir a tragédia iminente.
‒ Não podemos nem fugir para outros ōā’nū? ‒ pergunta um kadnīṣak.
Mãe Akonū, trêmula e angustiada, responde:
‒ Amanhã vocês verão.
O público, ainda mais intrigado do que antes, assiste à matriarca se retirar, sem poder fazer mais perguntas.
No dia seguinte, as técnicas da estação de rádio e telecomunicações do local correm para a casa do povo, onde vive Mãe Akonū. A notícia logo se espalha: matriarcas de todos os ōā’nū do mundo tiveram a mesma aterrorizante visão. Um clima de medo e tensão toma conta do vilarejo e logo a população, especialmente quem já tinha lutado contra os invasores marcianos antes, trata de se reunir com Enā’y, para discutir o que se pode fazer.
‒ Eu sei que nossa mãe disse que dessa vez não há escapatória. Não só ela. Pela primeira vez na história, várias matriarcas por todo o mundo tiveram a mesma visão. Não importa o que elas viram, eu acredito nelas. E acredito também que não vou me entregar aos invasores sem luta. Se é para morrermos, vamos levar quantos deles pudermos!
Cada uma das pessoas presentes, dispostas em círculo, deita a cabeça no ombro da mais próxima, mostrando assim que confiam suas vidas uma na outra. Elas então prosseguem ao campo de treinamento nas ruínas manauaras, lançando mão de todo armamento que encontram.

...

O movimentado mercado principal da vila segue como de costume, atraindo pessoas de assentamentos vizinhos e com elas as mais diversas frutas, legumes, caças, artesanatos e utensílios, tudo acompanhado por performances artísticas e animados ritmos musicais tocados ao ar livre. Nada disso, entretanto, chama mais a atenção do que um risco no céu, estreito e longínquo. Um clima de medo e tensão logo toma conta do povo. As pessoas deixam as mercadorias de lado e correm para suas casas. Em instantes, o grande terreiro se esvazia. Da antiga Manaus, o grupo de caça[1] identifica a coluna fumegante e logo se apressa em chegar até o local.
“Dessa vez vieram rápido demais! Nem se passou uma lua desde a visão de Mãe Akonū.” ‒ comenta Dayad, a bordo de uma das embarcações que leva o grupo para o outro lado do rio.
‒ É, e me parece que pousaram mais longe, dessa vez. ‒ concorda Ṣōd.
‒ Gostaria de dizer que aconteça o que acontecer, é uma honra estar com vocês. ‒ diz Nadua, com olhos lacrimejantes, mas semblante austero.
O grupo se entreolha. Palavras não são necessárias. Ioṣū segura firme a mão de Dayad. Uma chuva fina não tarda em cair, logo em seguida. O grupo aporta no vilarejo, onde se reúne com mais voluntárias, que carregam os armamentos mais pesados para carroças a cavalo, e se apressam para seguir o percurso em terra. Antes de partir, Dayad olha para a casa do povo, nunca antes tão deserta quanto agora. Ela adentra a imensa cabana, onde se encontra Mãe Akonū, rodeada de crianças cujas mães e pais foram lutar. A matriarca sorri tristemente ao ver a jovem e gesticula para que esta se aproxime.
‒ Minha netinha... Ainda lembro como se fosse ontem da noite terrível em que você ganhou essas marcas... ‒ diz a anciã, acariciando o braço esquerdo de Dayad, coberto de rosas de relâmpago, referindo-se às marcas na pele de uma pessoa atingida por um raio. ‒ Perdoe-me, você não as teria hoje se eu não tivesse usado as ervas que usei para aliviar sua dor...
“Tudo bem. Eu gosto delas.” ‒ sorri Dayad.
‒ Você perdeu a voz naquela noite, mas ganhou a vida. E uma linda companheira. A relação de vocês é tão bonita de se ver... Às vezes me faz lembrar do meu falecido companheiro...
Mãe Akonū desata a chorar no ombro de Dayad, que por mais que tente, não sabe como consolar a anciã.
‒ É inútil, mas, pelo que estou vendo, necessário que vocês lutem, não é mesmo? Então vá, minha pequena. Se você sobreviveu até mesmo a um raio, você pode sobreviver a qualquer coisa. Proteja suas companheiras, mostre às invasoras do que somos capazes!
Dayad beija as mãos da matriarca e parte para a saída da cabana. Contudo, quando já ia colocar os pés do lado de fora, uma dor pungente acossa seu braço. A jovem passa a mão no local e encontra uma diminuta seta da qual goteja um líquido escuro e viscoso. Perplexa, ela se volta, tentando identificar quem disparou, quando vê uma zarabatana na mão de sua avó.
‒ Vai dar tudo certo... ‒ anima a matriarca, cujos lábios continuam a se mover, mas as palavras já não lhe alcançam.
As pupilas da jovem se dilatam imediatamente e, por mais que se esforce, ela não consegue ouvir as palavras da avó. Seu corpo, tomado por uma dor lancinante, cai como se pesasse uma tonelada. Dayad entra em convulsão, resistindo inutilmente à substância que invade sua corrente sanguínea, até perder os sentidos.

...

‒ Como Vossa Santidade pode ver, todos os módulos aterrissaram num raio de até 50 quilômetros de seus respectivos destinos, conforme planejado. Os colonos chegaram bem e já começaram a enviar informações sobre os locais.
‒ Los Angeles, Luxemburgo, Jerusalém, Pequim, Sydney, Kinshasa, Manaus... Nenhum desses nomes faz sentido algum para mim. Que mundo enigmático esse dos nossos ancestrais, não é mesmo, Stephen?
‒ Bem, tratam-se de localizações estratégicas para repovo...
“Silêncio!”
O comandante sua frio, esforçando-se para nem sequer pensar.
Christianson se aproxima de Stephen e caminha lentamente ao seu redor, fitando-o de cima abaixo, quando, aí mesmo, estanca.
‒ Hah, que patético! Você, um homem desse tamanho, se urinando nas calças! Você quase me faz rir, Stephen... É por isso que eu deixo você viver.
‒ Obrigado... Vossa Santidade.
‒ Quero atenção máxima ali em... Bem, eu ainda vou achar nomes mais adequados para substituir esses topônimos bárbaros, exceto por Jerusalém, é claro. ‒ diz o reverendo, apontando para a região de Manaus no mapa. ‒ É ali que se encontra o maior foco de resistência terráquea. Foi lá que nossos homens foram brutalmente assassinados por esses demônios e é para lá que vocês devem direcionar o Arcanjo. Ande, está esperando o quê?!
‒ S... Sim, Vossa Santidade. ‒ gagueja o comandante, curvando-se e retirando-se logo em seguida.
‒ Ah, mais uma coisa!
‒ Sim? ‒ volta-se Stephen, que já estava prestes a sair da sala do reverendo.
‒ Não matem todos. Quero alguns demônios vivos, principalmente mulheres. Para experimentos, é claro.  
‒ Perfeitamente, Vossa Santidade. ‒ anui o comandante, retirando-se.
O reverendo se volta ao telão onde está um enorme mapa-múndi, cercado de janelas com imagens das colônias e dados enviados em tempo real, isto é, com atraso de cerca de três minutos-luz. Ele então toca um ponto da parede e um compartimento se abre, revelando uma barreira de vidro que o isola de uma cela de interior acolchoado, onde se encontra uma mulher lânguida e subnutrida, sob efeito de tranquilizantes.
‒ Veja, Perpetua, cada um dos sete pontos no mapa indica um casal, assim como eu e você, destinado a procriar e repovoar a Terra, bem do jeito que nossos avôs sonhavam. Não é lindo isso? Uma geração de Adãos e Evas...
Perpetua malmente vira o rosto na direção da tela e logo volta a olhar para a parede, sem dizer nada.
‒ Eu sei que você não gosta dessa ideia de Adão e Eva, tampouco dos desígnios dos nossos ancestrais, mas por que você não gosta de mim? Eu salvei sua vida! Você bem sabe qual é o destino para aquele que se recusa a acreditar nas escrituras, pior ainda para a mulher que desobedece às ordens de um homem ou então a mulher que... Você sabe. Vai me dizer que você preferiria a morte a essa cela tão confortável que eu lhe dei de presente?!
Perpetua debilmente anui com a cabeça. 
‒ Pois saiba que eu te mataria num instante, se dependesse só de mim! ‒ vocifera Christianson. ‒ Mas antes disso você tem que me dar um filho, ouviu bem?! Um filho varão, saudável! Não aqueles protótipos prematuros ou com deficiências, nem meninas inúteis, como você pariu antes! Quer acabar com seu sofrimento? Dê a luz a um herdeiro saudável, macho, de sangue puro, capaz de liderar a humanidade nas próximas gerações! Depois disso, aí sim, eu mandarei você para o Inferno com prazer!
Nesse momento, um sinal de alerta vermelho surge no telão. O reverendo se aproxima e nota as imagens de aproximações terráqueas ao redor da colônia amazônica, seguidas de movimentações nas demais colônias pelo mundo.
‒ Como Deus é maravilhoso! Ele está me dando uma dádiva que eu julgava privilégio exclusivo dos meus antepassados mais longínquos: ver selvagens infiéis sendo trucidados por nossa tecnologia infinitamente superior. O mais belo da colonização é que sua meta final consiste em criar pessoas de bem, civilizadas, que celebrarão atrocidades como esta em banquetes de família e recontarão esta história de geração para geração através de metáforas pueris e floreios épicos por séculos e mais séculos! É uma pena que você se recusa a ver este espetáculo, Perpetua... Será muito divertido!


[1] Uma vez que esse povo não tinha inimigos, seu idioma é livre de termos militares. As recrutas que têm alguma experiência com armas de fogo são caçadoras e o treinamento tem como objetivo empreender uma verdadeira caçada aos invasores marcianos.

Índice

Dedicatória / Aviso Capítulo 1: Sono eterno     Capítulo 2: O banquete     Capítulo 3: Um povo sem nome     Capítulo 4: Pr...