“Pronto, isso deve estancar a
hemorragia e cuidar da queimadura. Por sorte, o disparo não acertou órgãos
vitais.” ‒ explica Perpetua, terminando o curativo na região lateral do abdômen
de Enā’y.
“Obrigada...” ‒ murmura a terráquea.
“Agora, fique aqui. Nós vamos buscar
Zioiz e Ūāṣ, tudo bem?” ‒ anuncia Dayad, segurando a mão da amiga.
O grupo deixa Enā’y em seu leito e se
direciona à porta, rumo à outra ala onde deve se encontrar o casal. Antes de
sair, contudo, Perpetua ouve a paciente terráquea chamá-la:
“Desculpe por ter duvidado de você...”
“Tudo bem.” ‒ sorri Perpetua,
timidamente, e parte.
De porta em porta, o grupo revista
todo o laboratório de Bethesda, o qual foi designado para quarentenas e
experimentos com espécies alienígenas, sem expor o resto da colônia.
Finalmente, resta apenas uma sala ainda não revistada, justamente aquela aonde
Perpetua mais temia que tivessem levado as terráqueas.
“Não abre.” ‒ aponta Iouria, frustrado.
“Afastem-se.” ‒ pede Dayad, erguendo a
pistola a laser e disparando contra a fechadura eletrônica.
Finalmente a porta revela um interior
frio e escuro. Perpetua respira fundo e liga a luz, revelando duas macas
ocupadas, cobertas por lençóis sintéticos manchados de sangue. O clima se torna
ainda mais tenso. Dayad avança pelo cômodo, cautelosamente, e se aproxima dos
corpos, levantando o tecido do primeiro e...
“O que foi, Dayad? Quem é?” ‒ pergunta
Ayizur.
“Acho que era Ūāṣ.” ‒ conta Dayad, com
lágrimas nos olhos.
A outra terráquea se aproxima e retira
a capa, revelando um corpo masculino mutilado, desentranhado e decapitado.
Ayizur é tomada por um ímpeto de
vomitar, mas não consegue. Iouria se desespera e Perpetua, a mais afastada do
grupo, leva a mão ao rosto.
‒ Por que fizeram isso?! Por que
tamanha maldade?! ‒ grita Ayizur, dando socos no chão, inconsolável.
Dayad respira fundo e seca as lágrimas
com a mão. Ela então se encaminha até o outro corpo e, de uma vez só, retira a
capa.
O horror nos olhos de Dayad é
indescritível. Ayizur e Iouria se aproximam e não têm palavras para expressar
sua angústia e revolta. O corpo igualmente decapitado e mutilado de Zioiz tem,
ainda ligado por um cordão umbilical, um feto em formação arrancado do ventre e
posto ao lado da mãe.
‒ Nós... nem sabíamos que ela estava
grávida. ‒ murmura Ayizur, aos prantos.
“Eu... sinto muito.” ‒ lamenta
Perpetua. “Essa era a má notícia...”
‒ Então você sabia que fizeram isso
com elas?! ‒ pergunta Iouria, furioso.
“Não! Claro que não! Eu estava presa,
não sabia de nada do que estava acontecendo! Mas, uma vez que vocês foram para
a prisão e o casal ficou aqui, era possível de se imaginar que fosse para que
fizessem experimentos com seus corpos. Saber como funcionam, se são como os
nossos, guardar para a posteridade...”
Iouria olha para Dayad, como se para
confirmar os fatos, ao que esta anui pesarosamente. O terráqueo, tomado de
raiva, desfere um soco contra um armário de aço logo atrás de si, revelando uma
espécie de gaveta que se abre e revela as cabeças congeladas do casal,
juntamente com outras partes de seus corpos.
O jovem, aterrorizado pela visão
macabra, começa a arrancar os próprios cabelos e caminhar erraticamente ao
redor da sala. Dayad, cujas lágrimas se esgotaram, fecha a gaveta antes que
Ayizur, encolhida num canto, se levante e veja, piorando ainda mais a situação.
De repente, um ruído de transmissão de rádio começa a ecoar pela sala:
“Ouçam-me, demônios da Terra! Eu lhes
proponho um trato: a vida de vocês pela diabinha. Se vocês me entregarem-na,
deixo vocês irem de volta ao planetinha de merda de onde vieram, do contrário,
mato todos vocês! Perpetua, eu sei que você está me ouvindo, então traduza a
minha mensagem para o líder do grupo, agora!”
“O que foi que ele disse?” ‒ pergunta
Dayad.
“Que você se renda e, em troca, ele
deixará as outras partirem de volta à Terra.” ‒ conta a marciana.
Ayizur olha para Dayad e para
Perpetua. Iouria continua caminhando ao redor da sala, sem reação.
‒ O que está acontecendo? ‒ pergunta
Enā’y, da porta, após se esgueirar pelos corredores, ainda bastante debilitada.
Do lado de fora do laboratório ouve-se
o ruidoso maçarico, acoplado ao braço de Gabriel, recortando o pesado portão
metálico, última barreira entre o grupo e a escolta de Simon. Perpetua conduz o
grupo até a Arca, partindo para o painel de controle assim que adentra a imensa
nave espacial.
“Você consegue levá-las de volta para
casa?” ‒ pergunta Dayad, aproximando-se da marciana.
“Sim, a nave tem carga suficiente para
dar a partida, depois disso, contaremos com a energia do Sol... Espere. Você
não vai conosco?”
“Não. Preciso me assegurar de que
vocês partirão em segurança. Ademais, tenho assuntos a tratar com seu irmão.”
“Isso é suicídio, Dayad! Se você
ficar, ele fará coisas terríveis com você!”
“Ao contrário. Eu que farei coisas
terríveis com ele.”
A marciana não tem o que dizer diante
do determinado semblante da terráquea. Ayizur, após acomodar Enā’y e Iouria, se
aproxima, tensa.
“Aquela coisa está quase entrando aqui,
vejam!”
As mulheres veem o portal de Bethesda
prestes a desmoronar, agora sendo atacado brutalmente por Gabriel e os
impacientes guardas humanos.
“Seu tempo está acabando!” ‒ anuncia a
voz de Paul no rádio. “Rendam-se agora ou sofram as consequências!”
Dayad abraça Perpetua e Ayizur, que
não entende nada ao ver sua amiga partir, em silêncio, para fora da nave.
“Você não está pensando em se render,
está, Dayad?!” ‒ inquieta-se a terráquea, vendo-a beijar a testa de Enā’y,
desacordada, e Iouria, que, ainda que esteja de olhos abertos, não reage.
“Não há nada para mim lá na Terra.”
‒ Dayad, não!!! ‒ grita Ayizur, que
tenta ir atrás da companheira, mas é segurada por Perpetua.
“Sinto muito, eu também gostaria que
ela ficasse, mas temos que respeitar a escolha dela.” ‒ lamenta a marciana.
Dayad deixa a nave e olha pela última
vez para suas companheiras, enquanto caminha em direção ao portal. A Arca então
se fecha e começa a flutuar. Quando finalmente Simon e sua escolta conseguem
invadir Bethesda, se deparam com Dayad, sozinha e desarmada, e, ao fundo, a
nave rompendo o topo da abóboda translúcida que protege a base espacial ‒ uma
vez que não havia ninguém na sala de comando para abrir a redoma, como de
costume. O vácuo do espaço exterior começa imediatamente a sugar todo o
oxigênio do local, criando uma violenta corrente de ar que arrasta todas as
pessoas presentes.
‒ Mestre, salve-me! ‒ grita Simon ao
androide Gabriel, controlado à distância pelo reverendo, que tudo vê através
das câmeras.
O androide levanta voo em meio ao
caos, para contentamento do servo que o vê se aproximando. Para sua surpresa,
contudo, Gabriel passa direto e captura Dayad quando esta já está prestes a ser
sugada para o lado de fora ‒ destino, não obstante, encarado pelos guardas
desesperados. Simon, desolado, se entrega à morte certa por asfixia na inóspita
superfície nua do planeta vermelho, quando, para sua surpresa, ele consegue se
prender à borda do orifício. A duras penas, lutando para não escorregar no
sangue de suas próprias mãos feridas pelo vidro estilhaçado, o marciano
consegue esticar o corpo e permanecer dentro da abóboda, desafiando a
gravidade.
De posse de Dayad, Gabriel dá um voo
rasante e deixa Bethesda para trás. Uma vez assegurada a posse de seu troféu de
guerra, Paul aciona o mecanismo de fechamento de emergência da base espacial,
isolando-a do resto da cidade. Simon, que se preparava para caminhar do topo da
abóboda até o chão com o auxílio da gravidade invertida pelo fluxo de ar, agora
se vê no vácuo, sem nada que impeça a queda de aproximadamente 30 metros de
altura rumo à sua morte solitária.
Os primeiros raios de Sol começam a
surgir, iluminando a Arca, que agora ganha o horizonte. Dayad, apesar de tudo,
se alegra ao ver que suas companheiras conseguiram fugir em segurança. Presa
nos braços imóveis do androide, agora no chão, ela começa a suspeitar de que há
algo errado. Seu plano era ser levada até o líder marciano e então se vingar
dele, entre quatro paredes, mas o estranho homem de metal não se move nem a
libera, como se estivesse desativado ou aguardando instruções.
Eis que a escuridão do céu marciano é
cortada por uma estranha e, ao mesmo tempo, familiar coluna de fogo que acerta
a Arca, para desespero de Dayad, que vê a nave desabar de volta à superfície
marciana. Por mais que ela se contorça, é impossível se desvencilhar das firmes
garras do androide, mas o pior é saber que não há nada que ela possa fazer para
salvar suas amigas. Neste momento, Gabriel é reativado e novamente alça voo,
rumo à sinistra cruz de ferro que domina o horizonte.
“Está vendo o que você fez? Você os
matou! Foi você, com sua teimosia que só não é maior por falta de espaço. Você
destruiu Bethesda e a Arca. Você matou Simon, Perpetua e os outros. Agora, você
vai pagar por tudo isso!” ‒ anuncia Paul pelo rádio acoplado a Gabriel, mesmo
sabendo que a prisioneira não entende sua língua.
Desolada, Dayad não se importa. Ela não se
importa mais com nada.
Sua narrativa cria um crescendo na velocidade da leitura que é incrível! Começo a ler devagar, e aí o texto obriga vc a devorando as linhas e parágrafos em aceleração constante! Muita emoção e cenas angustiantes, evidenciando todo o horror da terrível tortura aos terráqueos. Dayad terá que ser forte. E Simon, pelo menos ganhou uma ilustração. :-o
ReplyDeletePena que está acabando... Parabéns mais uma vez!
Agradeço pelos comentários, eles me ajudam a entender melhor o efeito da minha escrita :) Domingo que vem teremos a conclusão, aguarde!
ReplyDeleteeu que agradeço! e ainda bem que já é quarta! )))
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