Sunday, December 23, 2018

Capítulo 5: A noite triste

Tempo médio de leitura: 9 minutos


Um mês depois.
‒ Droga! São muito mais do que pensávamos! ‒ exclama Ioṣū, correndo desesperadamente. ‒ Ṣōd, você ainda tem munição?
‒ Só restaram duas balas! ‒ confere o jovem, ofegante.
‒ Então atire neles! ‒ brada outra jovem, logo ao lado.
‒ Você ficou louca, Nadua?! Foi justamente o disparo que chamou a atenção do grupo! Se eu atirar de novo, só vai piorar!
“Eu tenho uma ideia, dê a arma para mim.” ‒ gesticula Dayad.
Ṣōd entrega seu rifle a Dayad, que diminui o ritmo, ficando atrás do grupo. De repente, ela para e se volta para uma frondosa árvore, cujo galho mais alto é dominado por uma imensa bromélia. Ela então atira na parte mais afinada do galho, fazendo-o tremer.
‒ Não adianta atirar para cima, Dayad! ‒ exclama Nadua, atônita.
Dayad atira mais uma vez, fazendo o já deteriorado galho desabar com o peso da enorme herbácea, justamente no momento em que a numerosa manada de queixadas passava por baixo, a poucos metros da jovem. Apavorados pelo estrondo, os porcos selvagens fogem, enquanto três deles se estrebucham debaixo da pesada tora de madeira.
‒ Genial! Dayad, você é o máximo! ‒ exclama Ioṣū, abraçando sua companheira.
‒ Nós devemos nossas vidas a você! ‒ reconhece Ṣōd, recuperando o fôlego.
‒ E um belo churrasco hoje à noite! ‒ sorri Nadua, que mal pode esperar para levar os três tenros porcos para casa.
Nadua adentra a vila, logo à frente de Ṣōd, imaginando as caras de espanto e admiração quando as outras virem quanta carne ela e suas companheiras trazem enfileiradas nas varas que apoiam em seus ombros. Os semblantes que ela encontra coincidem com suas expectativas, contudo, os olhares se fixam em outra direção.
‒ O que vocês estão olhando? ‒ estranha Nadua, à medida que se aproxima da clareira, ainda rodeada pela imponente mata.
As pessoas apontam para o céu e comentam entre si, impressionadas. O grupo deixa as queixadas para trás e se apressa para o meio da praça central, de onde veem nitidamente o motivo de tanto espanto.
‒ Será que aquilo é... ‒ balbucia Ṣōd.
‒ A visão da matriarca, sim, só pode. ‒ completa Nadua, boquiaberta.
A coluna de fumaça se alastra como um enorme e profundo corte perpendicular no céu, vindo de algum ponto inimaginavelmente distante. A essa altura, a fumaça já começa a se dissipar, quando, de repente, um bando de pássaros voa na direção do vilarejo, fugindo da ameaça desconhecida.
‒ Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas não imaginava que a tal coluna fosse cair tão longe. ‒ comenta Ioṣū, calculando mentalmente a distância e a dificuldade de se chegar à zona de impacto.
‒ O que vocês estão fazendo aí paradas? Vamos, apressem-se! ‒ brada Enā’y, com um fuzil em punho.

...

‒ Vírus: 0%. Radiação: 0%. Possíveis agentes de contaminação: 0%. Bem, amigos, os sensores nos indicam que já podemos tirar nossos capacetes.
‒ *Coff*! *Coff*! ‒ tossem os astronautas ao respirarem, pela primeira vez em suas vidas, fora de um ambiente pressurizado.
‒ Quanta... *coff* umidade! E como é quente aqui! Nunca senti tantos odores ao mesmo tempo na minha vida!
‒ Vai ver é por isso que nossos ancestrais viviam longe dos trópicos. É como se estivéssemos com febre o tempo todo! Ah, temos que passar o protetor solar, ele deve nos proteger dos insetos também.
‒ Espero que as vacinas que tomamos ainda sejam capazes de nos proteger das tais doenças tropicais. Faz quase duzentos anos que os pais fundadores as levaram para Marte, de lá para cá elas podem ter evoluído.
‒ Parem de reclamar, vocês sabem que pousamos na região equatorial porque assim teremos economia de combustível para facilitar nosso retorno. Agora vamos, me ajudem a ativar Sansão e enviar dados para a base em Marte. ‒ diz um dos astronautas, ativando um ícone de realidade aumentada que só ele e seus companheiros enxergam a partir de suas lentes de contato. Um compartimento da nave espacial se abre e de dentro sai um veículo flutuante e arredondado como um casulo metálico.


‒ Sansão, iniciar comunicação com a base.
A parte superior do veículo se abre, revelando um conjunto de câmeras que registram todo o ambiente ao redor. Daí se projeta um holograma, revelando um grupo de pessoas em uma sala de comando.
‒ Base, confirme recepção de sinal. Paz de Cristo. ‒ solicita um dos astronautas.
Cerca de três minutos depois, os tensos semblantes da base marciana mudam para contidos sorrisos.
‒ Recebido. ‒ responde o comandante. ‒ Bom trabalho, rapazes. Relatem status da missão e iniciem envio de dados sobre o planeta imediatamente. Paz de Cristo.
‒ Entendido. Status da missão: OK. Sansão, iniciar análise de terreno e envio de dados. 
O veículo se eleva e começa a esquadrinhar a floresta, recolhendo informações sobre fauna, flora e recursos a serem explorados. De repente um alarme soa, chamando a atenção dos astronautas.
‒ Parece que a sonda pegou alguma movimentação suspeita. ‒ comenta um dos astronautas, acessando as imagens. ‒ Deixe-me alternar para visão térmica...
‒ Esses sinais são de... pessoas?! ‒ espanta-se outro.
‒ Deixe de tolice. Devem ser macacos.
‒ Vou aproximar a câmera para captar imagens mais detalhadas.
A sonda submerge sob a copa das árvores, registrando, com nitidez, corpos humanos que se escondem, assustados, atrás das moitas. 
‒ Droga! Então ainda há sobreviventes! Sansão, iniciar protocolo 88/T4!
A sonda começa a efetuar disparos a laser contra os alvos que inutilmente tentam se esconder ou fugir. Uma a uma as pessoas são alvejadas, assim como previsto no referido protocolo referente ao caso extremamente pouco provável de encontro com sobreviventes, possíveis portadores do vírus do sono eterno.
‒ Hahaha! Vejam os macacos tentando fugir, é hilário! Pew-Pew! ‒ gargalha um dos astronautas, acompanhando a matança pelas lentes de contato e imitando o som dos disparos a laser.
‒ Oh... Parece que já acabou. ‒ conclui outro, desanimado. ‒ Eram só cinco.
‒ Sansão, analise o sangue dos alvos neutralizados. ‒ comanda outro astronauta, menos entusiasmado.
‒ Você acha que eles podem ter o vírus?
‒ É o que vamos ver agora.
Dentro de alguns minutos, a sonda envia dados detalhados sobre os corpos das vítimas, incluindo imagens em altíssima resolução, informações sobre sangue, código genético, peso, altura e idade.
‒ Não tenho certeza, mas parecem humanos. ‒ conclui um astronauta, diante do resultado das análises. ‒ Pelo visto, o vírus não conseguiu chegar até as profundezas da selva amazônica. Estão livres de doenças. Paz de Cristo.
‒ Negativo. ‒ responde o comandante da base, alguns minutos depois. ‒ O código genético desses espécimes que vocês neutralizaram não bate com nosso banco de dados. Parece que essa gente era desconhecida pela ciência até hoje, logo, o vírus não a afetou, uma vez que ele era projetado para acabar com todos os tipos de seres humanos conhecidos até então. Parabéns, vocês parecem ter exterminado a última tribo isolada do mundo. Paz de Cristo.
‒ Trataremos de nos certificar disso. Paz de Cristo. ‒ conclui o astronauta.
A noite cai e os marcianos se recolhem ao interior da nave para jantar.
‒ Vejam que fruta engraçada eu achei. O escâner diz que isso se chama “paullinia cupana”. ‒ mostra um dos astronautas.
‒ Bizarro. Parece um olho. ‒ afasta-se um colega. ‒ Tudo nesse planeta é asqueroso. Não vejo a hora de voltar para casa.
‒ Deus nos escolheu para sermos os primeiros humanos nascidos em Marte a retornar à Terra Prometida e você ainda reclama?! Imaginem como foi difícil para nossos pais fundadores se acostumarem a um novo planeta. Vocês pensam que eles reclamaram? Não, eles trabalharam duro, guiados por Nosso Senhor Jesus Cristo, para que depois de incontáveis problemas, conflitos e tentativas malsucedidas, 198 anos depois viéssemos a realizar seu sonho de voltar e retomar o que é nosso.
‒ Tem razão, desculpem. O Reverendo Christianson conta conosco. Imaginem como nossos irmãos estão orando por nós agora mesmo...
A conversa é interrompida pelo alarme de Sansão. O trio acessa as filmagens de visão noturna e se depara com um grupo muito maior de pessoas, inclusive a cavalo, se aproximando rapidamente.
‒ Sansão, iniciar protocolo 88/T4! ‒ ordena um astronauta.
A sonda começa a atirar em direção aos intrusos, ao que o grupo se dispersa. Os disparos provocam um incêndio na mata, inutilizando tanto a visão noturna quanto a visão térmica da sonda.
‒ Mas que droga! Eu queria ver de novo esses macacos fritarem! ‒ irrita-se um dos astronautas.
‒ Peguem suas armas. Estejam prontos para caso essas feras nos alcancem.
‒ Sério, você acha que Sansão não vai dar conta deles? Mesmo que consigam avançar, eles vão fazer o quê? Atirar pedras na nossa nave?
Nesse momento, a transmissão da sonda é perdida.
‒ O que houve??
‒ Não sei, parece que alguma coisa derrubou Sansão.
‒ Impossível!
O trio corre para a janela mais alta da nave a fim de ver o que se passa do lado de fora, deparando-se apenas com as trevas da floresta interrompidas pelas labaredas do crescente incêndio. De repente, algo acerta a fuselagem.
‒ O que foi isso?
Silêncio.
‒ Gênesis, o que houve com Sansão? Paz de Cristo.
O trio quase pula de susto ao ouvir a voz do comandante através do computador de bordo.
‒ Passamos por uns problemas técnicos. *sons de tiros na fuselagem* Averiguaremos o que aconteceu com a sonda assim que amanhecer! Paz de Cristo.
‒ Droga, o que será isso? ‒ preocupa-se o astronauta, desligando o microfone, ao que se ouvem mais tiros atingindo a nave. ‒ Será que eles viram o que aconteceu?
‒ Com certeza! E ainda ouviram esses ruídos!
‒ Venham ver isso! ‒ espanta-se um colega, olhando pela janela.
Os outros se aproximam e se deparam com vultos armados, iluminados pelas labaredas que se alastram como uma visão infernal cada vez mais próxima. Subitamente, um dos vultos pula para frente da janela, para espanto da tripulação que quase cai para trás. Seus gritos são inaudíveis, por causa do isolamento acústico da nave, mas seu semblante revela uma fúria pavorosa.
‒ Demônios! São demônios! ‒ grita um dos astronautas, em pânico. ‒ O vírus foi o julgamento final, nossos pais foram para o céu e o Inferno se instaurou na Terra!
‒ Acalme-se! Nossa nave é feita para suportar muito mais do que esses pobres diabos podem fazer para nos ferir. Eles são inofensivos!
O alarme da nave soa e uma mensagem de alerta vermelho aparece nos monitores indicando rompimento em um ponto da fuselagem.
‒ Droga! Agora não conseguiremos voltar para casa! ‒ chora um astronauta.
‒ Mas, como? Não pode ser! A fuselagem deveria ser impenetrável!
‒ Vejam o tamanho daquela coisa! ‒ aponta outro astronauta para uma bateria antiaérea do lado de fora.
‒ Gênesis, vocês estão em apuros! Retirem-se daí agora mesmo! Dirijam-se para algum lugar seguro, onde possam reparar os danos da nave e retornar para a base o quanto antes! Paz de Cristo.
A tripulação segue as ordens, levantando voo logo em seguida. Contudo, os disparos de bateria antiaérea continuam, acertando os retropropulsores, o que faz com que a nave se desestabilize e caia no leito do rio.
‒ Vocês estão bem?! ‒ pergunta um astronauta a seus colegas.
‒ Sim, eu acho... Temos um problema! ‒ aponta o colega em direção ao equipamento que começou a pegar fogo ao mesmo tempo em que a água avança por dentro da nave através de uma brecha provocada pela colisão.
‒ Temos que sair daqui! ‒ exclama outro astronauta, desesperado.
‒ Para morrer nas mãos daqueles demônios?!
‒ Deus irá nos proteger!
Os três homens, com dificuldade, saem da nave com as mãos para cima.
‒ Nós estamos desarmados! Pelo amor de Deus, não atirem! ‒ grita um deles, como se seu idioma fizesse algum sentido nestas terras.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, seus corpos são crivados pelas balas do pelotão de fuzilamento, ao que seus corpos caem, ainda vivos, para serem comidos pelas piranhas.

4 comments:

  1. Replies
    1. um pouco de trivia: o nome do capítulo é uma referência à "noche triste" da historiografia mexicana

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  2. Confirmou-se minha ideia que os marcianos instalaram um regimw teocrático, 'mono-étnico' , e que querem voltar a terra. Vieram preparados para possíveis sobreviventes, o que se confirmou. Com grande arsenal, os terráqueos não serão dominados! Muito bom!

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Índice

Dedicatória / Aviso Capítulo 1: Sono eterno     Capítulo 2: O banquete     Capítulo 3: Um povo sem nome     Capítulo 4: Pr...