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Um mês depois.
‒ Droga! São muito mais do que
pensávamos! ‒ exclama Ioṣū, correndo desesperadamente. ‒ Ṣōd, você ainda tem
munição?
‒ Só restaram duas balas! ‒ confere o
jovem, ofegante.
‒ Então atire neles! ‒ brada outra
jovem, logo ao lado.
‒ Você ficou louca, Nadua?! Foi
justamente o disparo que chamou a atenção do grupo! Se eu atirar de novo, só
vai piorar!
“Eu tenho uma ideia, dê a arma para
mim.” ‒ gesticula Dayad.
Ṣōd entrega seu rifle a Dayad, que
diminui o ritmo, ficando atrás do grupo. De repente, ela para e se volta para
uma frondosa árvore, cujo galho mais alto é dominado por uma imensa bromélia.
Ela então atira na parte mais afinada do galho, fazendo-o tremer.
‒ Não adianta atirar para cima, Dayad!
‒ exclama Nadua, atônita.
Dayad atira mais uma vez, fazendo o já
deteriorado galho desabar com o peso da enorme herbácea, justamente no momento
em que a numerosa manada de queixadas passava por baixo, a poucos metros da
jovem. Apavorados pelo estrondo, os porcos selvagens fogem, enquanto três deles
se estrebucham debaixo da pesada tora de madeira.
‒ Genial! Dayad, você é o máximo! ‒
exclama Ioṣū, abraçando sua companheira.
‒ Nós devemos nossas vidas a você! ‒
reconhece Ṣōd, recuperando o fôlego.
‒ E um belo churrasco hoje à noite! ‒ sorri
Nadua, que mal pode esperar para levar os três tenros porcos para casa.
Nadua adentra a vila, logo à frente de
Ṣōd, imaginando as caras de espanto e admiração quando as outras virem quanta
carne ela e suas companheiras trazem enfileiradas nas varas que apoiam em seus
ombros. Os semblantes que ela encontra coincidem com suas expectativas,
contudo, os olhares se fixam em outra direção.
‒ O que vocês estão olhando? ‒
estranha Nadua, à medida que se aproxima da clareira, ainda rodeada pela
imponente mata.
As pessoas apontam para o céu e
comentam entre si, impressionadas. O grupo deixa as queixadas para trás e se
apressa para o meio da praça central, de onde veem nitidamente o motivo de
tanto espanto.
‒ Será que aquilo é... ‒ balbucia Ṣōd.
‒ A visão da matriarca, sim, só pode.
‒ completa Nadua, boquiaberta.
A coluna de fumaça se alastra como um
enorme e profundo corte perpendicular no céu, vindo de algum ponto
inimaginavelmente distante. A essa altura, a fumaça já começa a se dissipar, quando,
de repente, um bando de pássaros voa na direção do vilarejo, fugindo da ameaça
desconhecida.
‒ Eu sabia que isso aconteceria mais
cedo ou mais tarde, mas não imaginava que a tal coluna fosse cair tão longe. ‒
comenta Ioṣū, calculando mentalmente a distância e a dificuldade de se chegar à
zona de impacto.
‒ O que vocês estão fazendo aí
paradas? Vamos, apressem-se! ‒ brada Enā’y, com um fuzil em punho.
...
‒ Vírus: 0%. Radiação: 0%. Possíveis
agentes de contaminação: 0%. Bem, amigos, os sensores nos indicam que já
podemos tirar nossos capacetes.
‒ *Coff*! *Coff*! ‒ tossem os
astronautas ao respirarem, pela primeira vez em suas vidas, fora de um ambiente
pressurizado.
‒ Quanta... *coff* umidade! E como é
quente aqui! Nunca senti tantos odores ao mesmo tempo na minha vida!
‒ Vai ver é por isso que nossos
ancestrais viviam longe dos trópicos. É como se estivéssemos com febre o tempo
todo! Ah, temos que passar o protetor solar, ele deve nos proteger dos insetos
também.
‒ Espero que as vacinas que tomamos
ainda sejam capazes de nos proteger das tais doenças tropicais. Faz quase
duzentos anos que os pais fundadores as levaram para Marte, de lá para cá elas
podem ter evoluído.
‒ Parem de reclamar, vocês sabem que
pousamos na região equatorial porque assim teremos economia de combustível para
facilitar nosso retorno. Agora vamos, me ajudem a ativar Sansão e enviar dados
para a base em Marte. ‒ diz um dos astronautas, ativando um ícone de realidade
aumentada que só ele e seus companheiros enxergam a partir de suas lentes de
contato. Um compartimento da nave espacial se abre e de dentro sai um veículo
flutuante e arredondado como um casulo metálico.
‒ Sansão, iniciar comunicação com a
base.
A parte superior do veículo se abre,
revelando um conjunto de câmeras que registram todo o ambiente ao redor. Daí se
projeta um holograma, revelando um grupo de pessoas em uma sala de comando.
‒ Base, confirme recepção de sinal.
Paz de Cristo. ‒ solicita um dos astronautas.
Cerca de três minutos depois, os
tensos semblantes da base marciana mudam para contidos sorrisos.
‒ Recebido. ‒ responde o comandante. ‒
Bom trabalho, rapazes. Relatem status da missão e iniciem envio de dados sobre
o planeta imediatamente. Paz de Cristo.
‒ Entendido. Status da missão: OK. Sansão,
iniciar análise de terreno e envio de dados.
O veículo se eleva e começa a
esquadrinhar a floresta, recolhendo informações sobre fauna, flora e recursos a
serem explorados. De repente um alarme soa, chamando a atenção dos astronautas.
‒ Parece que a sonda pegou alguma
movimentação suspeita. ‒ comenta um dos astronautas, acessando as imagens. ‒
Deixe-me alternar para visão térmica...
‒ Esses sinais são de... pessoas?! ‒
espanta-se outro.
‒ Deixe de tolice. Devem ser macacos.
‒ Vou aproximar a câmera para captar
imagens mais detalhadas.
A sonda submerge sob a copa das
árvores, registrando, com nitidez, corpos humanos que se escondem, assustados,
atrás das moitas.
‒ Droga! Então ainda há sobreviventes!
Sansão, iniciar protocolo 88/T4!
A sonda começa a efetuar disparos a
laser contra os alvos que inutilmente tentam se esconder ou fugir. Uma a uma as
pessoas são alvejadas, assim como previsto no referido protocolo referente ao
caso extremamente pouco provável de encontro com sobreviventes, possíveis
portadores do vírus do sono eterno.
‒ Hahaha! Vejam os macacos tentando
fugir, é hilário! Pew-Pew! ‒ gargalha
um dos astronautas, acompanhando a matança pelas lentes de contato e imitando o
som dos disparos a laser.
‒ Oh... Parece que já acabou. ‒
conclui outro, desanimado. ‒ Eram só cinco.
‒ Sansão, analise o sangue dos alvos
neutralizados. ‒ comanda outro astronauta, menos entusiasmado.
‒ Você acha que eles podem ter o
vírus?
‒ É o que vamos ver agora.
Dentro de alguns minutos, a sonda
envia dados detalhados sobre os corpos das vítimas, incluindo imagens em
altíssima resolução, informações sobre sangue, código genético, peso, altura e
idade.
‒ Não tenho certeza, mas parecem
humanos. ‒ conclui um astronauta, diante do resultado das análises. ‒ Pelo
visto, o vírus não conseguiu chegar até as profundezas da selva amazônica.
Estão livres de doenças. Paz de Cristo.
‒ Negativo. ‒ responde o comandante da
base, alguns minutos depois. ‒ O código genético desses espécimes que vocês
neutralizaram não bate com nosso banco de dados. Parece que essa gente era
desconhecida pela ciência até hoje, logo, o vírus não a afetou, uma vez que ele
era projetado para acabar com todos os tipos de seres humanos conhecidos até
então. Parabéns, vocês parecem ter exterminado a última tribo isolada do mundo.
Paz de Cristo.
‒ Trataremos de nos certificar disso. Paz
de Cristo. ‒ conclui o astronauta.
A noite cai e os marcianos se recolhem
ao interior da nave para jantar.
‒ Vejam que fruta engraçada eu achei.
O escâner diz que isso se chama “paullinia
cupana”. ‒ mostra um dos astronautas.
‒ Bizarro. Parece um olho. ‒ afasta-se
um colega. ‒ Tudo nesse planeta é asqueroso. Não vejo a hora de voltar para
casa.
‒ Deus nos escolheu para sermos os
primeiros humanos nascidos em Marte a retornar à Terra Prometida e você ainda
reclama?! Imaginem como foi difícil para nossos pais fundadores se acostumarem
a um novo planeta. Vocês pensam que eles reclamaram? Não, eles trabalharam
duro, guiados por Nosso Senhor Jesus Cristo, para que depois de incontáveis
problemas, conflitos e tentativas malsucedidas, 198 anos depois viéssemos a
realizar seu sonho de voltar e retomar o que é nosso.
‒ Tem razão, desculpem. O Reverendo
Christianson conta conosco. Imaginem como nossos irmãos estão orando por nós
agora mesmo...
A conversa é interrompida pelo alarme
de Sansão. O trio acessa as filmagens de visão noturna e se depara com um grupo
muito maior de pessoas, inclusive a cavalo, se aproximando rapidamente.
‒ Sansão, iniciar protocolo 88/T4! ‒
ordena um astronauta.
A sonda começa a atirar em direção aos
intrusos, ao que o grupo se dispersa. Os disparos provocam um incêndio na mata,
inutilizando tanto a visão noturna quanto a visão térmica da sonda.
‒ Mas que droga! Eu queria ver de novo
esses macacos fritarem! ‒ irrita-se um dos astronautas.
‒ Peguem suas armas. Estejam prontos
para caso essas feras nos alcancem.
‒ Sério, você acha que Sansão não vai
dar conta deles? Mesmo que consigam avançar, eles vão fazer o quê? Atirar pedras
na nossa nave?
Nesse momento, a transmissão da sonda
é perdida.
‒ O que houve??
‒ Não sei, parece que alguma coisa
derrubou Sansão.
‒ Impossível!
O trio corre para a janela mais alta
da nave a fim de ver o que se passa do lado de fora, deparando-se apenas com as
trevas da floresta interrompidas pelas labaredas do crescente incêndio. De
repente, algo acerta a fuselagem.
‒ O que foi isso?
Silêncio.
‒ Gênesis, o que houve com Sansão? Paz
de Cristo.
O trio quase pula de susto ao ouvir a
voz do comandante através do computador de bordo.
‒ Passamos por uns problemas técnicos.
*sons de tiros na fuselagem* Averiguaremos o que aconteceu com a sonda assim
que amanhecer! Paz de Cristo.
‒ Droga, o que será isso? ‒
preocupa-se o astronauta, desligando o microfone, ao que se ouvem mais tiros
atingindo a nave. ‒ Será que eles viram o que aconteceu?
‒ Com certeza! E ainda ouviram esses
ruídos!
‒ Venham ver isso! ‒ espanta-se um
colega, olhando pela janela.
Os outros se aproximam e se deparam
com vultos armados, iluminados pelas labaredas que se alastram como uma visão
infernal cada vez mais próxima. Subitamente, um dos vultos pula para frente da
janela, para espanto da tripulação que quase cai para trás. Seus gritos são
inaudíveis, por causa do isolamento acústico da nave, mas seu semblante revela
uma fúria pavorosa.
‒ Demônios! São demônios! ‒ grita um
dos astronautas, em pânico. ‒ O vírus foi o julgamento final, nossos pais foram
para o céu e o Inferno se instaurou na Terra!
‒ Acalme-se! Nossa nave é feita para
suportar muito mais do que esses pobres diabos podem fazer para nos ferir. Eles
são inofensivos!
O alarme da nave soa e uma mensagem de
alerta vermelho aparece nos monitores indicando rompimento em um ponto da
fuselagem.
‒ Droga! Agora não conseguiremos
voltar para casa! ‒ chora um astronauta.
‒ Mas, como? Não pode ser! A fuselagem
deveria ser impenetrável!
‒ Vejam o tamanho daquela coisa! ‒
aponta outro astronauta para uma bateria antiaérea do lado de fora.
‒ Gênesis, vocês estão em apuros!
Retirem-se daí agora mesmo! Dirijam-se para algum lugar seguro, onde possam
reparar os danos da nave e retornar para a base o quanto antes! Paz de Cristo.
A tripulação segue as ordens,
levantando voo logo em seguida. Contudo, os disparos de bateria antiaérea
continuam, acertando os retropropulsores, o que faz com que a nave se desestabilize
e caia no leito do rio.
‒ Vocês estão bem?! ‒ pergunta um
astronauta a seus colegas.
‒ Sim, eu acho... Temos um problema! ‒
aponta o colega em direção ao equipamento que começou a pegar fogo ao mesmo
tempo em que a água avança por dentro da nave através de uma brecha provocada
pela colisão.
‒ Temos que sair daqui! ‒ exclama
outro astronauta, desesperado.
‒ Para morrer nas mãos daqueles
demônios?!
‒ Deus irá nos proteger!
Os três homens, com dificuldade, saem
da nave com as mãos para cima.
‒ Nós estamos desarmados! Pelo amor de
Deus, não atirem! ‒ grita um deles, como se seu idioma fizesse algum sentido
nestas terras.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, seus
corpos são crivados pelas balas do pelotão de fuzilamento, ao que seus corpos
caem, ainda vivos, para serem comidos pelas piranhas.
triste, realmente...
ReplyDeleteum pouco de trivia: o nome do capítulo é uma referência à "noche triste" da historiografia mexicana
Delete>__<
Deletegracias... não sabia
Confirmou-se minha ideia que os marcianos instalaram um regimw teocrático, 'mono-étnico' , e que querem voltar a terra. Vieram preparados para possíveis sobreviventes, o que se confirmou. Com grande arsenal, os terráqueos não serão dominados! Muito bom!
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